sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Narrativa: como os jovens adultos procuram coerência entre etapas de educação, trabalho e desemprego

Falámos, em aulas anteriores, sobre as mudanças no âmbito das trajectórias de transição, em particular em jovens adultos (das carreiras em projecção balística, ao 'yo-yo' e aos voos de borboleta).

Devadason parte da perspectiva de Richard Sennet ('A corrosão do carácter',1998), autor para quem o emprego estável parece ser promotor de coerência, facilitando a percepção de continuidade. Devadason coloca, então, a seguinte questão: o que acontece, neste contexto, às narrativas dos jovens adultos europeus cujas carreiras estão moldadas pelas trajectórias yo-yo (Du Bois-Reymond & López Blasco, 2003)? Usando a tipologia de estratégias para construção de coerência de narrativas de Linde (1993) (a saber: continuidade temporal do self, reflexividade do self e relação do self com os outros, às quais Devadason acrescenta uma quarta estratégia, a compreensão retrospectiva), o autor procurou identificar que estratégias são mais usadas por estes jovens na construção de coerência de narrativas.

, p.f. façam a vossa reflexão crítica, produzindo comentários sobre o modo como os jovens adultos, os especialistas da incerteza, parecem, apesar de tudo criar narrativas coerentes.

Deadline: próxima 6ª feira, 2 de Dezembro.
Caso o link não funcione, p.f. contactem-me que eu enviarei o artigo.
Bom trabalho!

24 comentários:

  1. O artigo de Devadason sobre a construção da coerência nos jovens adultos através das múltiplas transições entre trabalho, educação e desemprego descreve o seu estudo sobre a exploração das experiências de 48 indivíduos, divididos em dois grupos de jovens adultos de 24 elementos cada, cujas idades estavam compreendidas entre os 20 e os 35 anos, residentes em Bristol e Gutemburgo, que completaram a sua educação e que tinham constituído família recentemente ou que estavam prestes a fazê-lo.
    Devadason refere a teoria de Richard Sennet sobre a corrosão do carácter, que afirma que os indivíduos são incapazes de desenvolverem narrativas coerentes de vida quando não têm segurança no trabalho, estando sob a influência do capitalismo de flexibilidade. Segundo Sennet, o ambiente de trabalho moderno, com ênfase nos empregos a curto prazo, na execução de projectos e na flexibilidade, não permite aos indivíduos desenvolverem experiências ou construírem uma narrativa coerente de vida, impedindo a formação do carácter no que concerne às designadas virtudes estáveis, como a lealdade, confiança, compromisso e sentimentos de entre ajuda.
    Discordo com a visão de Sennet, na medida em que a coerência da narrativa de vida de um indivíduo depende essencialmente da concretização dos seus objectivos, que devem estar de acordo com o seu auto-conceito e, na impossibilidade do indivíduo ter um emprego estável e que lhe permita evoluir, vai fazendo circunscrições dos empregos disponíveis, construindo uma narrativa de vida onde vai adquirindo experiência e maturidade, comprometendo-se e empenhando-se no seu projecto de vida. Relativamente à construção do carácter, penso que este é desenvolvido essencialmente através das experiências de socialização, tanto a nível familiar, como do grupo de amigos, professores e colegas. Neste ponto de vista, penso que o desenvolvimento do carácter de um indivíduo não é determinado por trabalhar em várias organizações e diferentes funções, característicos das carreiras em Yo-Yo, de projecção balística e de voos de borboleta, e as virtudes estáveis dependem em grande parte da cultura das organizações, cujo modelo de gestão, deverá promover esse tipo de atitudes e dos elementos que interagem entre si.
    A flexibilidade, determinação e especialização são cada vez mais determinantes no sucesso profissional, devendo os indivíduos fazer regularmente uma reflexão da sua narrativa de vida e analisar se está a decorrer no sentido de concretizarem os seus objectivos. Esta reflexão, enunciada por Giddens, poderá levar os indivíduos a delinearem estratégias e planos de acção para atingirem a coerência com as suas expectativas de vida e, caso seja a sua ambição, progredirem na carreira e na hierarquia das organizações.
    Neste sentido, os indivíduos necessitam de ter uma história de vida coerente, aceitável e constantemente revista, construindo continuamente o projecto do Self.

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  2. No estudo de Devadason, os entrevistados foram divididos em três categorias: quadros superiores, médios e inferiores. Os tipos de causalidade usados para explicar as suas transições ocorridas nas suas narrativas pessoais foram as seguintes: subida na hierarquia, desenvolvimento pessoal, evitamento de monotonia e tédio, na estaca zero e as histórias com revés.
    As conclusões do seu estudo foram que a frequência das transições entre empregos, educação e desemprego nos jovens adultos parecem não ser variáveis cruciais na criação de narrativas de vida coerentes.
    Por outro lado, a continuidade temporal do self e os objectivos a longo prazo são significantes na concretização da coerência das suas narrativas. Estes objectivos incluem possuir educação, ter estabilidade no emprego, ser bem sucedido numa área competitiva e o desenvolvimento pessoal.
    A progressão com vista à concretização dos objectivos pode não ser linear, com retrocessos e desvios da trajectória delineada no mercado de trabalho, sendo que estes acontecimentos descrevem a narrativa de vida de cada indivíduo. Neste sentido, a reconciliação entre os objectivos pessoais e as oportunidades disponíveis de educação e emprego são críticas na construção de coerência.
    Os jovens adultos demonstram uma inversão de valores, relativamente à época em que Sennett elaborou a sua teoria. Actualmente valorizam mais a vida caracterizada por novas experiências, desafios e desenvolvimento pessoal contínuo, face a carreiras com trajectórias lineares.
    A ambição e confiança são fundamentais para se superar barreiras, concretizar os objectivos e atingir assim narrativas de vida coerentes, pois neste mundo extremamente competitivo em que a oferta de empregos escasseia, deparamo-nos muitas vezes com dificuldades em obter um emprego, já para não falar em emprego estável que hoje em dia praticamente não existe. As frustrações e desilusões são uma constante para quem procura um novo emprego, o que conduz a que os indivíduos sejam menos exigentes e aceitem muitas vezes um emprego que seja uma alternativa a estarem desempregados, procurando oportunidades de mudança que estejam de acordo com os seus objectivos e auto-conceito.
    Essas necessidades de mudança, referidas anteriormente nos tipos de causalidade para as transições, quando postas em acção e havendo empenhamento a longo prazo, vão constituir o percurso profissional dos indivíduos, com avanços e recuos, em que a coerência se traduz nas narrativas de vida irem ao encontro dos seus projectos e objectivos.

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  3. Parte I:

    Numa economia e num momento económico em que a precariedade, as transições estudo/formação/emprego/desemprego (não necessariamente por esta ordem) revela trajetórias de vida tipo yo-yo, seria de esperar, como avançado por outros autores, que existisse também uma fragmentação na construção da narrativa de vida, o que levaria a uma menor coerência dessa narrativa por parte destas pessoas em trajetórias yo-yo.

    O que Devadason nos mostra neste artigo é que os jovens adultos conseguem elaborar estratégias promotoras de coerência de narrativa, mesmo em situações de trajetórias fragmentárias e 'dominadas' pela precariedade e pela incerteza.

    Isto não é o mesmo que dizer que a situação económica ou do mercado de trabalho é indiferente para a construção da narrativa de vida e para a percepção do eu...

    Talvez exista uma frase definidora do estudo em questão: “the coherence of the narrative is grounded in continual development of the self rather than continuous employment with a single employer” (p.214). Portanto, a estabilidade económica e de trabalho não é tão importante para a construção de uma narrativa coerente, porque, existem raciocínios de causalidade e, acima de tudo, estratégias de coerência que os jovens adultos aplicam de forma a construir pontes entre os episódios de fragmentação e, assim, construir continuidade do self e coerência narrativa.

    Mas, mais uma vez, digo: as estratégias de construção desta continuidade do self e outras estratégias de coerências podem ser usadas como forma de construção de coerência, independentemente da economia, isso não quer dizer que a própria economia não influencie as causalidades referidas, as estratégias de coerência e mesmo a construção de percepção do self, etc...

    Insisto neste aspecto porque, de início, o estudo pareceu-me muito focado nestas estratégias individuais contra as condições materialistas do que é extrínseco ao indivíduo.

    Mas, se olharmos para quem usa que tipo de causalidades e que tipo de estratégias vemos (parece-me) um padrão interessante, aliás referido por Devadason... Por exemplo, no que toca a causalidades para explicar as transições:

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  4. Parte II:

    as pessoas com bons empregos, bem pagos, com hipótese de progressão, etc., tendem a utilizar causalidades como “subir na carreira” ou “desenvolvimento pessoal”, como forma de justificar as suas transições... Arrisco agora eu a interpretação: parecem querer internalizar os seus sucessos. É normal, é um mecanismo de gratificação e de defesa do eu... As pessoas que parecem estar 'empancadas' em empregos pouco satisfatórios e mal remunerados tendem a encontrar causalidades estruturais, materialistas, extrínsecas: falta de oportunidades, revés e contratempos, etc. Também me parece um mecanismo normal de defesa do Eu: face a falhanços percepcionados, há a tendência a externalizar a culpa, para nos protegermos a nós...

    Se olharmos agora para as estratégias de coerência, vemos, segundo o autor que a continuidade temporal do self é a estratégia mais utilizada, enquanto que a a racionalização retrospectiva parece ser usada para integrar episódios de contrariedades em trajectos mais ou menos bem sucedidos. Mas, dominantemente, estas estratégias parecem ser mais utilizadas por quem se sente bem com o seu trajecto e, tendencialmente, tem carreiras satisfatórias em construção e com boa remuneração. Já outras estratégias, a saber, distanciamento reflexivo e relação do self com os outros, parecem ser manancial estratégico para aqueles menos satisfeitos e com empregos considerados menos satisfatórios, de vários pontos de vista... Mais uma vez parece haver uma externalização e um distanciamento deste trajecto pouco satisfatório...

    Assim, e posto isto, a minha reflexão aponta essencialmente neste sentido. O artigo e o autor consideram, e traduzem-se em bases observáveis, que os jovens adultos constroem narrativas de coerência independentemente das suas trajetórias de carreira. No entanto, parece-me importante observar que as estratégias e as causalidades utilizadas não são independentes desses trajetos. Parece haver uma instrumentalização das causalidades e estratégias, ajustando-se as mesmas conforme o que melhor protege o Eu, perante a minha trajetória.

    Portanto, o impacto da trajetória de carreira e da vivência material do confronto com a economia não fica reduzido ao grau zero, mas continua bem presente. O que aqui se prova é que há o desenvolvimento de estratégias para lidar com esse impacto, mas não há independência ou grito de Ipiranga sobre o mesmo.

    O próprio autor reconhece isto, portanto não digo nada de novo: “it seems that type of employment plays an important role in determining the type of strategy a young adult is able to pursue” (p.219).

    Mesmo não dizendo nada de novo, pareceu-me importante fazer pesar, na minha reflexão, a balança para este lado, porque me pareceu que o artigo colocou muito peso no outro prato dessa balança.

    Cumprimentos,
    moisés ferreira

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  5. Nas últimas décadas é perceptível um cenário de precarização relativamente ao trabalho e ao emprego com visibilidade no desemprego, nos empregos precários (estágios de curta duração, estágios de longa duração, estágios de inserção, contratos a termo, etc), nas saídas antecipadas do mercado de trabalho (ou pré reformas), ou seja, uma temível prova identitária que constitui a exclusão, ou quase exclusão, do emprego. Este cenário é acompanhado, no contexto da reorganização dos mercados de trabalho, da emergência de novos trabalhos e diversificação de formas de emprego assistindo-se, assim, a uma nova sociedade terciarizada, informatizada, que substitui a anterior sociedade salarial e manual.
    Partindo da perspectiva de Richard Sennett ('A corrosão do carácter’, 1998), os aspectos do novo capitalismo concorrem para o enfraquecimento de valores fundamentais, como sejam, o compromisso, a confiança e a lealdade, introduzindo a noção de “capitalismo flexível”. Este capitalismo dito “flexível” acaba por desviar os trabalhadores de um rumo único para as suas carreiras, ou talvez nem se possa pensar mais em “carreira” propriamente dita, uma vez que as pessoas fazem “partes de trabalho” e mudam frequentemente de emprego; ou seja, acabaram-se os tempos das carreiras profissionais estáveis e entramos na era dos itinerários profissionais imprevisíveis, qualquer que seja a duração e tipo de diploma obtido na formação inicial.

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  6. Com isso, as vidas deixam de produzir uma narrativa linear, são fragmentadas e aparecem como uma colagem incoerente; esse descontínuo gera ansiedade, uma vez que se impõe a necessidade de constantemente correr riscos.
    Devadason procura, numa perspectiva diferente da apresentada por Sennett, mostrar como jovens adultos constroem coerência agrupando episódios de emprego, desemprego e educação nas suas biografias, mediante a identificação dos principais tipos de causalidades invocados pelos jovens no seu estudo. Nesse sentido, argumentos como promoção na carreira, desenvolvimento pessoal e desejo de evitar a monotonia e aborrecimento, enfatizam o desejo de mudança e contribuem para a construção de narrativas coerentes de vida.
    Na minha perspectiva, esta construção de narrativas de vida coerentes está intimamente ligada ao sentido encontrado pelos indivíduos nos episódios de emprego/desemprego/educação, seja por desenvolvimento profissional e pessoal, realização de tarefas menos monótonas e mais enriquecedoras, remuneração, etc, ou seja, decorre de factores intrínsecos ou extrínsecos ao próprio trabalho.
    Por outro lado, o trabalho, e o sentido que lhe é atribuído, constitui um elemento essencial na produção/construção da identidade individual e social do indivíduo; e tal como afirma Gorz, “trabalhar não é apenas produzir riquezas económicas, é também uma forma de se produzir [a si mesmo]”.
    Perante um cenário de os itinerários profissionais imprevisíveis e oscilantes, para quê especializar jovens neste ou naquele domínio de formação? No limite pode-se perguntar porque é que a escola não se concentra na sua missão de dar a todos uma boa formação de base, o mínimo cultural, fazendo isso bem feito?

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  7. Que posso dizer acerca do assunto que ainda não tenha sido focado…talvez que a nossa trajectória profissional é feita de muitas “rotundas”, “becos sem saída”, “encruzilhadas” e que tal como os voos de borboleta, as trajectórias sócio-profissionais das novas gerações e da minha geração são incertas e imprevisíveis. Basta olharmos em redor (ou até ao espelho) para facilmente, descobrirmos alguém que se encontra numa situação de desemprego ou de precariedade em termos laborais. Já para não falarmos nas trajectórias de yo-yo em que o individuo se especializa numa determinada área de actuação e depois exerce a sua profissão noutra relacionada ou totalmente diferente. Qualquer que seja a situação a incerteza e a insegurança está sempre presente. Agora pergunto: o que será que esta insegurança e incerteza provoca no individuo? Será que alguém aguenta viver no “limbo” eternamente? Será que deixamos de viver e passamos a um registo apenas de sobrevivência, ligamos o “piloto automático”?

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  8. Sennet (1998) defende que o emprego estável é promotor de coerência, facultando uma visão de continuidade. Mas isto é uma utopia, pois os empregos estáveis no presente escasseiam. Logo, segundo esta teoria nenhum de nós pode ter uma visão de continuidade, mas sim uma visão fragmentada do futuro, ou seja, o indivíduo pelo facto de estar em constante mudança laboral não consegue desenvolver experiências que lhe permita construir/formar o seu carácter no que concerne às virtudes estáveis, como a lealdade, confiança e sentimento de entreajuda (cooperação). Devadason (2007), coloca esta questão: Que estratégias são utilizadas por estes jovens adultos da actualidade para não perderem a coerência na sua narrativa?!!!!!!! . Ao tentar responder à sua própria interrogação, Ranji Devadason acrescenta à teoria de Linde (1993), a compreensão retrospectiva. O que faz todo sentido, neste momento. A autora com a sua investigação demonstra que os jovens europeus constroem a sua coerência, através da junção de episódios de emprego, desemprego e educação/formação à sua história de vida. Logo, as trajectórias de voos de borboleta não têm assim tanto peso na criação de narrativas de vida coerentes. No entanto, por outro lado a continuidade do self e os objectivos a longo prazo parecem ser significantes na concretização de coerência das suas narrativas. Penso que vai existindo um reajuste periódico entre os objectivos delineados e as oportunidades laborais que surgem, o que se mostra crucial na vida do indivíduo e consequentemente na construção de coerência. A grande questão é: será que vivemos para trabalhar ou trabalhamos para viver?

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  9. Obrigada pelos comentários dos que já se pronunciaram. Fico a aguardar pelos comentários dos que ainda não o fizeram.

    Mas até lá, fica o meu feedback:

    Gosto de ver a Teresa a emitir opinião crítica. Discordou de Sennet e justificou-o com conceitos. Poderia, no entanto, ter desenvolvido mais o parágrafo 2 do 2º comentário, em particular pelo seu ponto de vista RH (se não estou em erro). No 5º parágrafo, qd fala dos valores dos jovens adultos, poderia ter feito 1 interligação conceptual com aquilo que abordámos sobre a produção da Prof. Renata Salecl. De resto, bom trabalho!

    Moisés:

    Da globalidade do seu comentário surge uma reacção ao excesso de centração na individualização das narrativas, a favor de uma visão mais macrossistémica. Há 2 questões, no entanto: na visão de Brofenbrenner sobre os níveis sistémicos, o mais complexo envolve os níveis anteriores, pelo q o macrossistema engloba o microsistema tb. Em silogismo: o macroestrutural engloba o intrapsíquico (conhece Peter Marris e o seu 'Politics of uncertainty'?)

    Mas sim, estou de acordo que as narrativas de individualização são o mais relevante neste estudo de Devadason. Decorre daqui (e de outras investigações) uma tendência à individualização na narrativa da transição, parecendo resultar que a vivência da transição é dominada por dimensões tendencialmente intrínsecas, centradas na sua vivência e responsabilização individual,
    mesmo em situações de conflito, o que coloca em plano de destaque o locus de controlo tendencialmente interno como indissociável do discurso dos jovens adultos na tentativa de
    criação de coerência nas suas narrativas de vida. Tal ideologia, hegemónica no ‘mundo desenvolvido’, perspectiva o sujeito como o decisor único da sua vida, negligenciando o papel que as macro-estruturas culturais e políticas detêm na construção dos projectos de vida. podemos estar perante a internalização individualizada da responsabilidade, em que, por
    consequência, os falhanços serão acompanhados de sentimentos de inadequação (Ryan,
    1971; Salecl, 2003), de individualização da culpa, face ao discurso social de que tudo é
    possível e acessível, dependente apenas de vontade individual. Por outras palavras, perante
    a tirania da multiplicidade da tomada de decisão na ‘sociedade da escolha’ (Salecl,
    2003;2009), os sujeitos adoptam a necessidade de maior flexibilidade, debruçando-se sobre
    aquilo que lhes parece mais facilmente controlável: eles próprios, incorporando esta
    temática nas narrativas sobre a transição. Poderemos estar perante a individualização como
    sinal de flexibilidade exigida ao sujeito para lidar com as macro-estruturas? James Coté
    no âmbito do seu modelo de ‘capital identitário’, identifica justamente o
    locus de controlo interno e a flexibilidade cognitiva como recursos individuais críticos na
    esfera de acção nas sociedades contemporâneas.

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  10. Ana Pestana:
    O seu comentário, até pela centração (e bem) no modelo económico do capitalismo actual, merecia ligação conceptual à sociedade de escolha da Renata Salecl. No entanto, o seu último parágrafo deixa uma questão muito pertinente: qual o papel da escola (educação/formação) perante este cenário, que não seja o da socialização para o consumo?

    Carla:
    Reflexão crítica presente (embora gostasse de a ver mais aprofundada), embora não se centrasse no essencial: o porquê da individualização da narrativas. Acha que consegue desenvolver um pouco mais esta ideia?

    Quanto aos restantes, fico a aguardar os vossos comentários antes de colocar novo post para discussão.

    Até breve, bom trabalho!
    Ana Martins

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  11. O artigo de Devadason pretende estudar o desenvolvimento da coerência em jovens adultos entre os 20 e os 35 anos, com percursos de vida instáveis. Pretende saber se apesar das dificuldades e dos percalços, os jovens adultos conseguem desenvolver estratégias de coerência na sua vida profissional.
    Numa realidade precária, onde o sentimento de incerteza é predominante Devadason refuta a teoria sobre a corrosão do carácter de Sennett, ao verificar que nos jovens adultos ingleses de Bristol e Gutemburgo conseguem elaborar trajectórias de vida coerentes. A vivência de uma realidade hostil e precária parece não ser determinante na criação de narrativas de vida coerentes.
    Tendo como referência os posts anteriores, a auto-eficácia e o auto-conceito são conceitos decisivos na organização de vida dos sujeitos. Se o sujeito tiver noção que tem capacidade para desempenhar determinada profissão, e se sentir que essa mesma profissão vai de encontro as suas expectativas irá perseguir esse objectivo, e não será demovido por circunstâncias situacionais menos favoráveis. Apesar de carreiras profissionais do tipo yo-yo e voos de borboleta, os indivíduos conseguem desenvolver processos e elaborar estratégias promotoras de coerência de narrativa.
    Segundo Linde o conceito de estratégias coerentes é adoptado para se chegar a uma compreensão da vida adulta que se reflecte no mercado de trabalho contemporâneo e “a normalização da incerteza” como fornecimento de identidade e estabilidade.
    E que estratégias são essas? Devadason menciona no seu estudo que os jovens adultos constroem coerência agrupando episódios de emprego, desemprego e educação nas suas biografias, mediante a identificação dos principais tipos de causalidades. Fundamentos como promoção na carreira, desenvolvimento pessoal e desejo de evitar a monotonia e aborrecimento, enfatizam o desejo de mudança e contribuem para a construção de narrativas coerentes de vida.
    Concluindo, o que se pretende esclarecer com o este estudo é que, o sujeito mesmo perante as adversidades é capaz de se adaptar e de construir contractos de vida coerentes.
    As limitações que me ressaltam neste artigo, é o facto de não considerar os conceitos fundamentais e determinantes das teorias referidas anteriormente. A pluralidade da individuo deve ser considerada, tal como factores extrínsecos que não dependem do individuo mas que o influenciam, devem ser factores a ter em conta na construção de uma teoria que pretende de alguma forma explicar o comportamento humano.

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  12. Por minutos de diferença....Fico aguardar o seu feedback! :)

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  13. Lisete,
    a parte de síntese está muito bem. O parágrafo das limitações é que merecia maior desenvolvimento e maior clareza (não me é claro o que quer dizer com a primeira frase). Para completar a reflexão crítica, é bom sublinhar com o que se concorda, justificando-o. De resto, tentou ir buscar a percepção de auto-eficácia e interligá-lo com esta temática, o que é justamente o que se pretende. Vamos continuar a melhorar :)

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  14. Introdução: Ranji Devadson procede a uma análise crítica de Richard Sennet e da sua teoria da Corrosão do Carácter, remetendo-a para os dias de hoje, actualizando-a e contextualizando-a, procurando introduzir um sentido mais actual e prático às questões que afectam presentemente a sociedade, e apresentação de soluções à vista. É impossível tentar entender questões sociológicas e psicológicas ligadas ao ser humano, sem entender o mundo que o rodeia. Em primeira instância temos, como tem vindo a ser demonstrado e focado nos posts anteriores, o mundo actual socioeconómico infestado por um capitalismo exacerbado pela flexibilidade do universo das relações trabalhistas. Dá-se lugar à rotina dinâmica (articulada às questões de auto-eficácia de Gottfredson), basicamente uma rotina da insegurança no emprego, do futuro incerto, da costumeira reavaliação da carreira. Ainda antes, já a inserção no mercado também se descobre um processo em trajectória yo-yo, de episódios de desemprego, emprego precário e formação (Pais, 2001). Autores preenchem-nos de teorias sobre a lesão de valores pessoais e influências nefastas no carácter humano.
    Sennet desafia o leitor a decidir e a flexibilização do capitalismo moderno oferece um ambiente melhor para o crescimento pessoal ou se é apenas uma nova forma de opressão…
    O carácter: Sennet define o carácter em suas palavras como sendo “… o valor ético que atribuímos aos nossos próprios desejos e às nossas relações com os outros, …, são traços pessoais a que damos um valor em nós mesmos e pelos quais buscamos que os outros nos valorizem.” (pág.10).

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  15. O trabalho e a narrativa: Sendo o trabalho um elemento vital e indispensável na estabilidade do ser humano em todos os seus contextos, é de esperar que com o aumento da competitividade e com a alienação do sucesso, o aumento da burocracia e da rotina, o mundo do trabalho tornou-se de tal modo flexível que os valores humanos sofram uma corrosão interna. O carácter pessoal vai sendo corrompido, pelo que o ser humano já não sabe onde vai nem o que deve procurar. Quer o trabalhador quer o sujeito sem trabalho vivem numa situação de insegurança, angústia e ansiedade. Segundo Sennet, o capitalismo flexível afecta o carácter pessoal principalmente porque não propõe condições para a construção de uma história linear. Sendo que actualmente o contexto de trabalho actual é um contexto fragmentado, constituído por episódios de emprego e desemprego, emprego de curto prazo, experiências de trabalho quase aleatórias, é impossível ao ser humano a construção de uma narrativa de identidade e uma história de vida coerentes, tal seria de esperar. Uma vez que o ser humano conta história para construir a sua identidade, se não pode contar histórias, não pode construir a sua identidade (?!), ou não descreve narrativas lineares, logo o desenvolvimento da sua identidade também é fragmentada (?!)… Sennet afirma que perante este capitalismo flexível que não propõe condições para a construção de uma história de vida linear, o carácter pessoal é afectado. O autor em a “Corrosão do Carácter” (1989) não contempla jovens e outros sujeitos cujo percurso se tem identificado por um somatório aleatório de episódios inconstantes de trabalho, ou falta dele, como indivíduos passíveis de descrever uma narrativa de vida coerente. A seu entender, apenas a estabilidade está relacionada com a coerência da narrativa. Nesta perspectiva, e no panorama actual, tantos seriam os indivíduos que não fariam a sua narrativa e cujo desenvolvimento da própria identidade estaria comprometida. Se algum dia esta visão foi verdadeira, actualmente não é certamente. Face às dificuldades sentidas certamente que estratégias já foram desenvolvidas e se tornaram um instrumento intrínseco, ou pelo menos de conhecimento pessoal, usado para ultrapassar estas barreiras.
    Linde (1993) discute o papel da narrativa como uma forma de expressão e de transmissão de um conhecimento social como um tipo de conhecimento tácito específico. A narrativa fornece uma ponte entre o subentendido e o explicito. Segundo o autor, a narrativa representa um processo importante para o ser humano, seja ela escrita, oral, pois permite é um método auxiliar para o sujeito na construção da sua identidade. O processo permite igualmente ao sujeito entender a natureza das suas experiências.

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  16. Narrativa, trabalho e coerência: Devadson, com referência à teoria de Sennet, descreve um estudo sobre a construção da coerência nas narrativas de jovens adultos através de múltiplas transições entre trabalho, educação e desemprego. Estes jovens estarão numa fase de vida em que a sua educação está completa e a constituição de família é um objecto de vida proeminente. A sua análise foca-se em que períodos da transição se emolduram nas narrativas destes Jones adultos e identifica quais os discursos que estes aplicam ao ter em conta estas múltiplas transições (trad. pág 205). O autor identifica os principais tipos de causalidade referida pelos jovens e procura, numa perspectiva diferente de Sennet, mais actualizada, demonstrar como os jovens adultos podem construir coerência nas suas narrativas, mesmo encontrando-se em percursos de carreiras afectadas por trajectórias yo-yo, com projecção balística e voos borboleta. Estes jovens constroem as suas biografias agrupando momentos de empregos, desemprego e formação. Neste seguimento é possível concluir que Sennet está, se não errado, pelo menos desactualizado à nossa realidade, a qual a mesma, já não se enquadra, na maioria dos jovens, neste contexto de falta de coerência nas suas narrativas. Devadson, por sua vez, considera possível que jovens adultos, no contexto actual de insegurança e instabilidade laboral, consigam elaborar narrativas coerentes de vida, tendo para isso desenvolvido estratégias aplicadas às diversas etapas do seu desenvolvimento e respectivas transições entre essas etapas.
    A coerência: Linde (1993) discute a coerência na narrativa como “ sendo uma propriedade de textos; deriva da relação do que representa determinada parte de um texto, quer para outras partes separadas desse texto, quer para o texto integral… A coerência deve ser entendida e interpretada como uma realização cooperativa entre tanto o remetente como o destinatário “. O processo de criação de coerência não é fácil segundo a autora, e neste devem intervir princípios de consenso e adequação. Os princípios que estabelecem a coerência são a causalidade e a continuidade. A causalidade adequada gera-se a partir da escolha o narrador pelo conceito de carácter ou de outras múltiplas razões para descrever os eventos que constituem a sua narrativa. A continuidade é atribuída à demanda social de que os eventos da narrativa tenham uma sequência temporal.
    Outros autores pesquisam a definição de coerência e também para eles o carácter multidisciplinar do conceito dificulta a tarefa e propicia a adopção de diferentes visões. De acordo com Koch e Travaglia (2003;2005), a coerência é um fenómeno linguístico responsável pela construção do sentido do texto, ou seja, é tudo aquilo que possibilita ao receptor de uma composição textual captar um significado da mesma. Estes autores compreendem que a coerência consiste num princípio de interpretabilidade e compreensão do texto, na medida em que está relacionada com a possibilidade de conferir ao texto a formação de ma unidade de sentido e relação entre os seus enunciados. Os factores responsáveis pela coerência são vários, no entender destes autores, factores de origem externos ao texto em si, tal como o Conhecimento de Mundo e Factores de Contextualização, entre outros, e elementos internos ao texto reproduzem-se nas dimensões da coerência.

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  17. O desenvolvimento macro económico resultou num atraso na transição do jovem para vida adulta propriamente dita. Esta fase do desenvolvimento humano está bastante associada a três transições que se interligam entre si: a educação para a empregabilidade, o constructo do “lar” e a formação de família (Jones, 2000). No entanto, Devadson refere que a padronização destas transições é desafiada por teorias de individualização que sugerem a dissociação de eventos específicos ou transições de estágios ou fases específicas de vida. Está subentendido neste processo de individualização, como enfatiza Giddens (1991), a construção da percepção do ser. Jovens adultos ao construírem a sua narrativa projectam na mesma o significado que percepcionam das suas experiências. Logo, a própria narrativa é um instrumento usado para o desenvolvimento pessoal. Neste seguimento, sendo que o Devadson considera a existência de coerência na narrativa dos jovens participantes neste palco da vida, muito embora se desenvolva esta coerência em situação de desequilíbrio e inconstância na passagem da vida académica para a vida profissional e outros contextos de transições, pelo intermédio de estratégias, podemos considerar a construção de estratégias individuais de construção da percepção do eu?! Parece-me que sim, embora o processo não se feche em si…
    Estratégias de coerência: Na secção de construção de narrativas coerentes, Devadson relacionou os tipos de causalidade com as estratégias que os jovens adultos utilizam. Estão relacionadas com as suas motivações e comportamentos em situações de conflito, tais como: ter uma carreira de liderança e subir na carreira, o desenvolvimento pessoal, e evitar a monotonia e tédio. É comum, trabalhadores bem posicionados quer em termos de remuneração, quer em termos de representação social e remuneração, utilizarem estas estratégias para justificarem os seus momentos de transição. Estas estratégias conferem continuidade temporal às narrativas dos jovens que as mencionam. O regresso à estaca zero é um argumento que está relacionado com episódios de trabalho em empregos indesejados e/ou detestáveis e por isso não confere uma coerência temporal, mas por outro lado traduz-se numa alusão à continuidade da pessoalidade uma vez que possibilita a construção do sentido do Eu em jovens que permanecem nesta fase “zero” por períodos extensos. Outra estratégia utilizada é a continuidade temporal do self, que é, segundo o autor, a mais distinta. Muitos jovens mencionam esta estratégia para associar aspirações individuais a características pessoais e preferências, logo, justificando por esta forma as suas transições.

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  18. Conclusão: em minha perspectiva, em análise ao texto e analisando a coerência das narrativas, poderíamos verificar se de facto estas estratégias acontecem e aplicam-se, no entanto são muitas vezes uma justificação interior para os medos de ultrapassar barreiras pessoais respeitantes à carreira, quer em termos de progressão, quer em termos de satisfação. Tão verdade é que a economia flexível dificultou e ainda dificulta a permanência no trabalho e ter neste um porto seguro de rendimento e realização pessoal, como é verdade que nem todo o ser humano procura melhora, quer melhorar, se apercebe que deve ou pode melhorar, e arrisca a fazê-lo. Não é de agora que Portugal se mostrou um país precário a este nível e há décadas que os trabalhadores têm que enfrentar estas questões. Não só portanto, os riscos de uma falta de coerência advêm da descontinuidade do percurso do indivíduo, como, a meu entender, a narrativa pessoal tem muito que ver, principalmente nesta fase do desenvolvimento económico e estado do status social, aspectos como as relações com a família desde a infância, os amigos, os pares, os objectivos pessoais, no fundo, a prioridade que atribuem aos factores internos e externos que os rodeiam e a percepção com que encaram as suas experiências terão algo a dizer na construção de uma narrativa coerente dos jovens actuais. Neste contexto, concerteza as experiencias que por vivenciam em momentos de empregabilidade, educação e formação, assim como as experiências que vivenciam quando atravessam fases de desemprego serão determinantes na construção das narrativas coerentes. Como Devadson refere no seu artigo, enquanto as estratégias de coerência Continuidade Temporal e Retrospectivas Racionais estão relacionadas com jovens que perseguem os seus objectivos e metas, Linde refere outras estratégias, Distanciamento Reflexivo e Relação do Self com os Outros, para jovens que nos momentos de transição lamentam as suas escolhas feitas cedo demais.
    Concluindo, primeiro, Devadson parece não dar muita importância às questões de falta de continuidade nas transições entre emprego, formação e desemprego, relativamente à construção de narrativas de vida coerentes (pág. 217). Aliás, são os jovens que ditam os seus objectivos e percursos, e criam a sua própria coerência na maneira como “relatam” a sua história. O autor está de acordo com Sennet, quando refere que os jovens inverteram os seus papéis, e o que era outrora significado de insegurança, pode ser agora encarado com o sentido de novas experiências, novos desafios e contínuas oportunidades de desafio pessoal. Parece haver uma “obrigatoriedade” maior por parte daqueles que permanecem em empregos estáveis, mas monótonos e que não promovem o desenvolvimento de careira, em justificar a sua “opção” em permanecerem nesta monotonia.
    Segundo, nem todos os jovens são iguais claramente. Os processos de individualização parecem ser o que distingue a possibilidade e capacidade de criar ou não narrativas coerentes, muito embora a interoperabilidade em surtos do processo promova a falta de continuidade temporal.
    Terceiro, e muito curioso a meu entender, mas perfeitamente perceptível, o conceito de coerência de Devadson e Linde nos trazem relacionam-se perfeitamente com a Teoria Sócio-Cognitiva de Bandura (1997), no sentido em que as estratégias directamente ligadas à Continuidade Temporal de Eu estão interligadas ao conceito de auto-eficácia dos mesmos jovens que as aplicam. Nesta perspectiva, entendo que estes jovens tenham mais em controlo as sua próprias opções, mesmo quando estas não são alternativas e sim imposições, pelo menos, temporárias.

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  19. Susana,
    muito bom comentário, com a apresentação das noções base agregadas em torno de tópicos, com interligações conceptuais com outras matérias (a ser mais clara na justificação) e trazendo a sua posição face ao artigo e fundamentando-a.

    Apenas 3 questões para clarificar:

    1) "Uma vez que o ser humano conta história para construir a sua identidade, se não pode contar histórias, não pode construir a sua identidade (?!), ou não descreve narrativas lineares, logo o desenvolvimento da sua identidade também é fragmentada (?!)" - não entendo os pontos de interrogação e exclamação, pretendia sublinhar a sua discordância?

    2)"mesmo encontrando-se em percursos de carreiras afectadas por trajectórias yo-yo, com projecção balística e voos borboleta." - atenção que as trajectórias de projecção balística são opostas à fragilidade das de yo-yo ou voo de borboleta. As primeiras são caracterizadas pela regularidade, pela segurança, pela correspondência entre área de formação e emprego.

    bom trabalho!

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