sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Linda Gottfredson: Teoria da Circunscrição e do Compromisso

A dimensão da tomada de decisão é algo que está intrinsecamente associada à intervenção psicológica individual, em particular no âmbito vocacional. Leiam, p.f., este artigo e efectuem os vossos comentários críticos sobre a pertinência desta teoria, de que forma se aplica no mundo actual e que contribuições pode dar à intervenção psicológica. Boas leituras, estarei cá para dar feedback quando todos tiverem comentado. O artigo seguirá por email.

18 comentários:

  1. Segundo a teoria de Linda Gottfredson, o desenvolvimento da carreira é um processo que se inicia na infância e decorre ao longo da vida, no qual o indivíduo vai fazendo as escolhas vocacionais de acordo com o seu auto-conceito, ou seja, procurando empregos compatíveis com as imagens que tem de si próprio.
    Desta forma, as escolhas vocacionais assentam em quatro grandes processos: o desenvolvimento cognitivo, o desenvolvimento auto-dirigido do self, a circunscrição e o compromisso.
    O desenvolvimento cognitivo e intelectual da criança vai evoluindo com a idade, assim como, as concepções do self e do mundo ocupacional que se vão tornando cada vez mais complexas. No que se refere ao desenvolvimento auto-dirigido do self, este consiste no papel que o indivíduo assume no seu desenvolvimento em que ganha maturidade, manifestando-se através das suas escolhas e experiências, orientando-se para determinadas actividades, pessoas e contextos.
    O processo de circunscrição refere-se à exclusão das actividades ocupacionais que entram em conflito com o auto-conceito do indivíduo, ou seja, quando não existe congruência entre a sua identidade e o mundo profissional. Nesta óptica, a preferência pelas profissões depende desta compatibilidade. Os indivíduos para terem aspirações vocacionais realistas devem obter o maior conhecimento possível das oportunidades e barreiras à concretização da sua escolha vocacional.
    A circunscrição é caracterizada por quatro fases cuja duração depende do nível de desenvolvimento cognitivo da criança e adolescente, e que está associado a um período etário e escolar, assim como, à sua competência cognitiva.
    As preferências vocacionais são influenciadas por uma abstracção que vai crescendo de acordo com a idade dos sujeitos que vão tendo maior capacidade cognitiva.
    No processo de circunscrição raramente as profissões ou as actividades excluídas são reconsideradas espontaneamente, apenas acontecendo quando ocorrem mudanças significativas no ambiente social do indivíduo.
    Após a circunscrição, em que ocorre um afunilamento das opções vocacionais possíveis, dá-se inicio ao processo de compromisso com as opções tomadas.
    A decisão vocacional implica o abandono de alternativas que tinham sido consideradas anteriormente, havendo uma acomodação das aspirações do indivíduo à sua realidade externa.
    O compromisso pode ser antecipatório ou experiencial. É antecipatório quando os sujeitos começam a integrar as suas esperanças de acordo com as opções tomadas. O compromisso experiencial acontece quando existem barreiras concretas na implementação das preferências dos sujeitos.
    No processo do compromisso existem três factores influenciadores: a limitação da exploração das opções, que resulta na falta de informação e leva a um afunilamento de opções; pelo maior investimento e melhor acessibilidade, que dependem do comportamento e acções do próprio individuo; e pelas correspondências “suficientemente boas” entre a percepção que o sujeito tem de si próprio e as opções disponíveis.
    Desta forma, o compromisso vocacional irá ser estabelecido com a profissão mais adequada ao tipo de trabalho do espaço social do indivíduo.
    Assim, caso haja uma ameaça à posição social ou à identidade de género, vai ter como efeito a diminuição da sua acomodação psicológica a compromissos vocacionais.
    Finalmente, quanto à satisfação do trabalho, esta aumenta consoante o grau em que o compromisso vocacional permita ao sujeito, tanto profissional como a nível pessoal, obter um self social desejado.
    Concluindo, a teoria da circunscrição e do compromisso descreve como se desenvolvem as escolhas vocacionais. Com base nas suas premissas, identifica a importância do auto-conceito dos sujeitos que deve ser coerente com as suas actividades e profissões, sendo um processo que se desenvolve ao longo do tempo e depende de vários factores, destacando-se a maturidade dos sujeitos a nível cognitivo e intelectual, a influência social, as concepções do self e do mundo profissional.

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  2. Teoria da Circunscrição e do Compromisso de Linda Gottfredson (parte 1)

    Tentando fazer um breve comentário ao artigo de Linda Gottfredson, dividirei a intervenção em 3 pontos: 1) pontos importantes e principais da teoria (na minha perspectiva, obviamente); 2) duvidas e criticas; 3) a teoria nos dias de hoje e os contributos para a intervenção psicológica

    1. Num apontamento muito pessoal, devo começar por dizer que a teoria me pareceu bastante interessante, não pela solidificação de argumentos e evidências usadas (em algumas partes), mas acima de tudo pela capacidade de integração holista. Corresponde, portanto, a uma alternativa a algumas criticas lançadas no início do artigo, quando se refere a necessidade de uma maior integração entre as interpretações psicológicas e as interpretações não-psicológicas. É uma teoria desenvolvimental que integra muito de social, de psicologia social, de económicosocial, de cognitivismo, etc, etc...
    A autora faz a certa altura do artigo a questão: “se as pessoas vêem as profissões da mesma forma, porque razão não querem todas as mesmas profissões?” A pergunta revela um primeiro aspecto interessante: a semelhança entre os mapas cognitivos construídos para as profissões, como espécie de 'arquétipo colectivo'; e arrisca uma resposta bastante interessante: as nossas potenciais escolhas evoluem a partir de um processo desenvolvimental feito desde a idade em que o nosso processamento de pensamento está ainda numa fase intuitiva e até uma fase pré-mercado de trabalho (adolescência). Durante este período é feito um processo de circunscrição ou afunilamento entre as profissões existentes. Começamos a 'riscar' das hipóteses profissões que consideramos serem mais orientadas para o outro género que não o nosso; depois fazemos pesar na balança o prestígio social, as nossas capacidade se competências que nos permitem empreender esforço até um certo limite (se bem que este 3º estágio desenvolvimental seja bem mais complexo e com muitos mecanismos sociais, fica aqui esta forma simplista). Aqui chegamos à delimitação de uma área ou espaço social de onde escolheremos o nosso projecto profissional. É com a introdução de variáveis de nível mais interno, com a introdução de variáveis mais próximas do nosso desenvolvimento personalítico que escolheremos, dentro deste espaço social, alternativas e hipóteses sobre o nosso futuro sócioprofissional. Na confrontação com o mercado do trabalho, Linda Gottfredson não esquece outras variáveis, porventura mais materialistas, mas com profundo impacto. É uma mostra de realismo importantíssimo por parte da autora, que não deixa afunilar a teoria em perspectivas psicologizantes da realidade, mas traz a realidade económica para dentro da teoria... E coloca-se a questão: 'Pronto, agora já passamos a fase da circunscrição, já operacionalizamos relativamente bem a profissão que quero, agora é só desempenhá-la?' Não, não é assim. E cada vez menos... A essa questão responde-nos a realidade com outras: 'Há emprego nessa área?'; 'O mercado de trabalho deixa-te desempenhar essa profissão?'... Muitas vezes não, e aí é chagada a hora de fazer compromissos. O indivíduo que não consegue desempenhar como profissão a melhor alternativa possível dentro da sua área social, o que faz? Procura, obstinadamente, emprego apenas nessa área? Provavelmente, passado algum tempo, começa a procurar noutras áreas... Procura apenas a melhor hipótese possível dentro da sua área social? Provavelmente, satisfar-se-á em encontrar emprego que, ainda que não sendo a melhor hipótese, é uma alternativa... O individuo pode sacrificar algumas das variáveis que foram intervenientes no processo de circunscrição? Pode. A autora diz-nos que a primeira a ser abandonada é, geralmente, a dos interesses pessoais sobre uma determinada profissão. Esse abandono pode ser compensado por outras variáveis: o salário, a carreira, o facto de ter emprego, o facto de sentir que tem uma profissão adequada ao seu género e com um estatuto social que lhe agrada...

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  3. Teoria da Circunscrição e do Compromisso de Linda Gottfredson (parte 2)

    2. Como já disse, a teoria parece-me muito interessante, mas não deixo de colocar algumas questões em jeito de crítica. Esta teoria, por ser desenvolvimental, cai, por princípio, num problema em que caem as teorias desenvolvimentistas: soa e lê-se com estanquicidade dos estágios... E não estou certo que exista estanquicidade dos mesmos. Percebo que essa forma como por vezes nos são apresentados os estágios também servem para simplificação gráfica da teoria, mas, por exemplo, será que a análise de género às profissões acaba mesmo no estágio2? Em jeito de pergunta caricatural: aos 8 anos uma criança saberá da existência de quantas profissões? 100? Mas provavelmente, aos 14 anos sabe da existência de 1000 hipotéticas profissões... Não terá que haver, a todo o momento, a existência dessa lupa de género para analisar as profissões? O mesmo para a destrinça do ponto de vista da orientação para a valorização social: se calhar aos 13 anos a profissão que me parece mais valorizada pode ser a profissão de professor (é uma figura de autoridade, que me ensina, posso acreditar que tem um bom salário, constato que é respeitado na sociedade...), mas aos 14, 15, 16 anos, a minha avaliação será, creio, totalmente diferente do ponto de vista de valorização pessoal... Por isso, primeira pergunta: estes filtros que levam à circunscrição não estarão sempre presentes e sempre a funcionar?
    Uma segunda questão tem a ver com uma afirmação da autora referente ao estágio 3: “a consciência sobre o nível de competências de cada um não será aqui discutido porque se assume que os jovens, em particulares aqueles com um pensamento mais concreto, farão o julgamento sobre o quão inteligentes são mediante as suas classificações escolares” (tradução livre da página 562). Para além desta questão, perpassa um pouco durante o artigo de que os jovens (referência principal do artigo) conseguem obter um pensamento concreto e real sobre as suas competências, uma das variáveis de circunscrição do estágio 3. No entanto, não sei se não se estará aqui a esquecer a variável auto-eficácia, que será mais uma percepção sobre as minhas capacidades do que sobre as minhas capacidades na realidade...
    Numa terceira e última pergunta sobre o artigo: Considerando até que o mesmo tem 30 anos, será que hoje existe ainda uma tamanha clivagem entre as profissões para homens e as profissões para mulheres? Certamente que ainda não chegamos ao tempo da androgenia total, mas provavelmente, nos últimos 30 anos, registou-se à feminilização de uma série de profissões ou áreas profissionais anteriormente consideradas para homens, enquanto acredito que o processo contrário também tem acontecido... Sendo assim, será que esta teoria, tão vincada das questões de género pode ainda manter algumas das suas conclusões... Uma das conclusões avançadas é que, no momento do compromisso, a última coisa a sacrificar é a orientação de género da profissão. Será assim?

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  4. Teoria da Circunscrição e do Compromisso de Linda Gottfredson (parte 3)

    3. A teoria nos dias de hoje: para além desta questão sobre este vinco nas questões de género, também é preciso perceber, por exemplo, que o mercado de trabalho de hoje é muito diferente do de 1981. Com o emagrecimento do mesmo e com o aumento do desemprego, é provável que os níveis de compromissos sejam outros e maiores...
    Outras questões ainda relacionando o actual mercado de trabalho com o artigo: escrito nos dias de hoje, seria provavelmente dedicar uma grande atenção às lógicas de reorientação de adultos. Tendo em conta as trajectórias emprego-desemprego cada vez mais presentes, todo o período de circunscrição de área social, escolha de hipóteses, etc., é um processo cada vez mais constante e presente ao longo da vida, portanto longe de se esgotar no estágio 4, mimético com o período psicossocial da adolescência.
    Do ponto de vista de contributos para a intervenção psicológica, o artigo aponta direcções no sentido de intervir junto de adolescentes e das suas indecisões e dúvidas. Mais uma vez, acrescento a necessidade deste tipo de intervenção junto de adultos. Propõe uma intervenção em termos de competências e em termos de prioridades (interesse, género ou prestígio). Acredito que também deve ser feita uma intervenção em termos de expectativas realistas ou idealistas, pois não estou certo da existência do concretismo dessas análises, como por vezes sobressai no artigo. Informar sobre mercado de trabalho, sobre as competências necessárias para determinada profissão e a intervenção no equilíbrio entre expectativas e possível pode ser uma intervenção importante. Creio que esta abordagem não cai na hipótese da reorganização das aspirações do sujeito (como abordagem não-ética), creio sim que cai numa abordagem de informação, sendo a decisão sempre do sujeito...

    Moisés Ferreira

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  5. A teoria de Linda Gottfredson pretende explicar o desenvolvimento das aspirações de carreira. Destaca-se de outras teorias na área por referenciar o desenvolvimento da orientação vocacional como um processo que se inicia na infância, e que decorre ao longo da vida do sujeito terminando apenas quando este encontra uma opção profissional que lhe é satisfatória.
    Linda Gottfredson reformula e acrescenta novos factores e conceitos ao estudo da orientação vocacional. Esta teoria introduziu no processo de tomada de decisão vocacional conceitos tais como, o auto-conceito (desenvolvimento do self), a circunscrição, e o compromisso, que revelaram a ser conceitos significativos e determinantes nas opções de escolha do sujeito.
    O auto-conceito é um dos conceitos chave desta teoria. O desenvolvimento do self, permite ao sujeito ter uma percepção de si mesmo e das suas aptidões. Esta teoria diz-nos que a forma como o sujeito apreende o mundo que o rodeia, o auto-conceito, é decisivo nas suas escolhas. O sujeito tem tendência a optar por aquilo que compreende que lhe é acessível, e a excluir o que pensa que não lhe é possível alcançar. Variáveis de nível interno relativas ao processamento intelectual formulam hipóteses viáveis e não viáveis de uma futura profissão. A este processo de selecção e eliminação de hipóteses denomina-se por circunscrição.
    A influência que o contexto social e os valores intrínsecos a esse contexto têm no sujeito é inquestionável. O meio social, mesmo que de uma forma inconsciente ao próprio individuo, determina a tomada de decisão de forma simultânea a delimitação e a eleição de opções. Como mencionado no artigo de Gottfredson e a título de exemplo, as mulheres tendem a escolher profissões que são socialmente aceites ao seu género, e a eliminar opções que a sociedade incute como sendo predominantemente masculinas. Esse ajuste do individuo as contingências sociais é o que a teoria refere como sendo o compromisso. O compromisso é a acomodação das aspirações do indivíduo à sua realidade. Nesta fase o indivíduo vai de encontro as opções que considerou socialmente adequadas, e começa a integrar e a explorar essas opções de uma forma mais concreta e realista. Na fase do compromisso o sujeito cria um espaço social delimitado, uma zona de alternativas e suas fronteiras, é onde surgem os primeiros obstáculos reais.
    A teoria da circunscrição e do compromisso de Linda Gottfredson pode resumir-se em quatro etapas/processos, o mapa cognitivo do mundo do trabalho, o espaço social definido por limites, os princípios e estádios do processo de circunscrição, e o compromisso das aspirações e percepção da acessibilidade. Conclui-se que esta teoria indica que há processos inerentes a dimensão da tomada de decisão.
    O afunilamento de escolhas vocacionais do sujeito desenvolve-se ao longo da vida, e vai-se clarificando e moldando paralelamente com o desenvolvimento cognitivo, e de acordo com o meio social onde o sujeito está inserido.

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  6. Obrigada à Teresa, ao Moisés e à Lisete pelos vossos comentários. Uma vez q mais ninguém comentou, aqui vai o meu feedback.

    A Teresa e a Lisete optaram por uma estratégia defensiva: fizeram uma sumarização da teoria (e muito bem feita, aliás), mas esqueceram-se de introduzir uma visão crítica da aplicabilidade de uma teoria dos anos 80 para o mundo hoje, sem tb identificar contributos e limitações para a intervenção psicológica. Não efectuaram, por exemplo, ligações com os posts e aulas anteriores: que semelhanças e dissonâncias existem na visão de escolha de Linda Gottfredson e de Renata Salecl? Qual o impacto da percepção da auto-eficácia (PAE)nesta teoria? E qual é o papel que a exploração e o investimento (Marcia) poderão ter nesta perspectiva de Gottfredson?


    Quanto ao comentário do Moisés, todo ele (e bem) centrado na reflexão crítica:

    Sublinha a integração de diferentes elementos sistémicos numa perspectiva desenvolvimentalista. É-o, de facto, porque é de natureza macrosistémica e tem um pressuposto de realismo, muito orientado para as dificuldades das barreiras ambientais, distanciando-se, por isso, da visão idílica do desenvolvimento vocacional (Super, Holland) centrado na mera articulação entre interesses, valores e crenças, como se mais nenhuma variável existisse.
    A parte final do seu 1º comentário traduz bem o carácter heterogéneo e complexo da tomada de decisão, bem distante de perspectivas mais funcionalistas da tomada de decisão (exemplo: período de 'matching' nos momentos históricos q abordámos nas aulas).
    Quanto à sua crítica sobre 1 perspectiva desenvolvimental que acaba por parecer uma sequência linear de estádios, estamos de acordo. Há autores que se dão ao trabalho de sublinhar a natureza não linear e não balizada em termos de idade, mas Gottfredson não é uma dessas autoras. Por outro lado, estamos novamente de acordo sobre o permanente funcionamento dos 'filtros' da circunscrição: não só não são lineares, como poderemos, em adultos, voltar aos filtros que tínhamos enquanto adolescentes...
    Quanto à sua objecção do estágio 3, mormente sobre o julgamento de si próprios em função das notas escolares: na adolescência, tendencialmente um estádio interpessoal, o self do adolescente é aquilo que os outros determinam - não sendo portanto de surpreender que o seu auto-conceito (aqui sendo avançado como 'inteligência') seja ditado pelas notas.
    No que concerne os seus comentários relativamente à androgenia, esse tema é muito pertinente. De facto estamos a falar de 1 teoria dos anos 80, mas deixo-lhe a pergunta: será que a androgenia está assim tão presente ao ponto de deslocar as questões de identidade de género?

    O Moisés utilizou a expressão 're-orientação' quando quis sublinhar a ausência do adulto nesta teoria. De facto pode ser encarado como limitação, mas na prática a autora admite q o foco é aquele: o adolescente/jovem adulto. Por outro lado, toda a orientação é sempre 're-orientação', pelo q conceptualmente não faz sentido falar em reorientação, mesmo se falamos de adultos. Por fim, outra pergunta sobre o seu último parágrafo: não será centrar a intervenção no fornecimento de informação e retornar aos tempos do matching?

    Estamos a progredir, a intencionalizar mais a nossa reflexão. Prossigamos!
    Até breve,
    Ana Martins

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  7. Boa noite,
    Apesar de tarde, aqui fica o meu contributo…

    Parte I

    As abordagens desenvolvimentistas assumem a concepção da escolha vocacional como um processo de desenvolvimento ao longo do tempo. Assim, para Linda Gottfredson , o desenvolvimento cognitivo próprio de cada fase é determinante da forma como os diferentes elementos do Eu (género, origem social, interesses, competências ou valores) vão sendo integrados na identidade dos jovens.
    Será esse desenvolvimento cognitivo que enquadra a eliminação ou circunscrição de determinadas alternativas profissionais, começando por uma orientação para o tamanho ou força (3/5 anos), para o género (6/8 anos), para o estatuto social ou prestígio (9/13 anos), até uma fase (a partir dos 14 anos) em que são os aspectos referentes à própria identidade que assumem a centralidade nesses processos de circunscrição e de compromisso.
    A nível familiar, os pais e mães assumem um papel fundamental no desenvolvimento dos modelos identitários da criança; as crenças e representações que os pais e mães têm acerca do que é feminino ou masculino (ex: disciplinas a seguir, cursos, profissões, etc) influenciam os comportamentos e expectativas dos filhos. Esta influência dos pais/mães, bem como de outros agentes educativos (professores, meios de comunicação, etc.), estende-se a dimensões relacionadas com o domínio vocacional, nomeadamente à forma como são construídos os interesses profissionais e certas expectativas acerca de si próprio.
    Linda Gottfredson, na sua teoria da circunscrição e compromisso, explica que por volta dos 6-8 anos de idade, as crianças começam a ter consciência da influência do género na determinação das profissões adequadas e inadequadas. Assim, esta “estrutura” relativamente ao género no mundo profissional será dificilmente modificável quando se chega à adolescência, momento em que são exigidas as primeiras grandes decisões face à carreira (que área escolher, até onde continuar a estudar, que profissão, etc.); só na adolescência, segundo Linda Gottfredson, os interesses, capacidades e valores são usados para circunscrever o leque de escolhas, mas antes disso, já o género exerceu a sua influência selectiva, determinando a motivação para certas tarefas e actividades em detrimento de outras.

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  8. Parte II

    De um modo geral, existem barreiras à tomada de decisão, ao prosseguimento dos estudos e à inserção no mercado de trabalho, baseadas no género e nas quais o papel da socialização e da cultura é determinante. Umas ocorrem mais precocemente, durante a infância e o percurso académico, e outras após a inserção no mercado de trabalho. Contudo, nos dias de hoje, a escolha de uma profissão em função do género encontra-se cada vez mais esbatida, pois já encontramos mulheres em áreas que há 30 ou 40 anos (ou até menos) eram exclusivamente dominadas por homens e vice-versa.
    Na prática, a teoria de Linda Gottfredson aborda questões que devem ser realçadas no aconselhamento vocacional, relacionadas com a identificação de recursos e limitações, análise e realização de escolhas e aquisição de informação pertinente.
    Apesar de não haver evidências acerca de que tipos de intervenção de carreira são mais efectivos, há indicações de que as intervenções são mais eficazes quando requerem reflexão pessoa apoiada e participação, ajudam a construir uma rede de apoio e proporcionam feedback individualizado e informação sobre o mundo do trabalho. E cada um dos 4 processos de desenvolvimento apresenta riscos e evidencia comportamentos que podem ser optimizados para promover o desenvolvimento:
    - O crescimento cognitivo relaciona-se com a aprendizagem efectiva;
    - A self-creation com a experiência adequada;
    - A circunscrição com o self-insight;
    - E o compromisso com o auto-investimento sensato, em que, idealmente, deveria existir exploração e firme investimento.
    Devido à actual instabilidade do mercado de trabalho, actualmente escolher uma profissão já não é necessariamente uma decisão para toda a vida, é ainda assim uma das primeiras grandes responsabilidades que são exigidas aos jovens. Tendo em conta que esta opção tem implicações não só na dimensão profissional, mas estrutura em grande medida outras dimensões da vida, importa que seja feita com o mínimo de constrangimentos pessoais e sociais.
    Os jovens devem ter plena consciência dos seus interesses e aptidões, dos aspectos que valorizam numa profissão e fora do contexto profissional, e do tipo de constrangimentos e barreiras que devem ultrapassar para que a sua escolha vá de encontro aos seus reais interesses, aptidões e valores.

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  9. Sobre o comentário ao meu comentário: percebi e concordo com as objecções colocadas à 'reorientação' de que falei, tanto à terminologia como, em parte, ao conteúdo...

    Sobre o julgamento do aluno de si-próprio em função das notas, na adolescência, percebi também a explicação, no entanto, provavelmente como em tudo, essa discussão parece-me ser mais alargada e abrangente.

    Sobre as questões deixadas pela professora ana martins:

    1. Sobre a androgenia. Efectivamente creio que o seu estado total ainda não se implementou; as diferenças de género existem, determinam papéis sociais, etc... Mas acredito, por um lado, que essas determinações por género são mais esbatidas hoje do que eram nos anos 80 e, por outro lado, que caminharemos (provavelmente de forma lenta) para um maior esbatimento. Mas isto já é mais no campo das esperança e menos da ciência :). Mas, por exemplo, se olharmos para aquela nuvem de pontos existente no artigo de Linda Gottfredson, encontraremos profissões tidas como masculinizadas que, provavelmente, hoje já não serão tidas desta forma (juiz, engenheiro, atleta, médico...) e outras estão no caminho do esbatimento (político, por exemplo).

    Sobre a última questão: na veedade, não pretendia propor centrar a intervenção apenas no fornecimento de informação sobre profissões e mercado de trabalho. se a abordagem de linda Gottfredson me pareceu especialmente interessante pela sua análise macrosistémica e heterogénea nas suas variáveis não poderia propor depois uma prática tão afunilada... O meu comentário sobre a questão era o da necessidade de uma intervenção para o ajustamento de expecxtativas pois não me parecia linear que, no final dos estágios sugeridos, essas expectativas estivessem ajustadas ao verdadeiro mercado e função de trabalho... Isto para desaguar numa questão colocada pela autora "is it wise - or ethical - for counselors to reshape youngesters' aspirations and views of themselves?"

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  10. Introdução contextual: Linda Gottfredson propôs, no universo de teorias já existentes, a teoria das Aspirações Ocupacionais (1981, 1996), de carácter mais holístico, ir ao encontro das vertentes psicológica e sociológicas do desenvolvimento humano. A sua teoria vai ao encontro da Teoria da personalidade de Holland’s (1973), que conhecendo o tipo de personalidade das pessoas e reconhecendo igualmente uma personalidade característica dos empregos e das profissões, prediz o tipo de trabalho que as pessoas procuram e que irão gostar e tal como a teoria de Super, esta teoria desenvolvimentista, debruçando-se como esta procura se desenvolve.
    A Teoria das Aspirações Vocacionais tenta explicar porque as pessoas se sentem mais atraídas por um determinado tipo de profissão e ocupação e considera o papel importantíssimo do auto-conceito pessoal no desenvolvimento vocacional, bem como o facto de que os indivíduos procuram profissões ou empregos compatíveis com a imagem que têm de si mesmos.
    A maior parte das teorias anteriores canalizavam a sua atenção nas influências que o ambiente social e económico no desenvolvimento vocacional independentemente dos desejos do indivíduo. Não prestavam muito pouca atenção às contingências ambientais, não reconheciam o background socioeconómico e a inteligência como importantes predictores das aspirações vocacionais, e concentravam-se apenas em predictores bastante mais fracos, tal como os valores e interesses dos jovens assim como o dos seus pais. Gottfredson (1981) contribui para um melhor entendimento destas teorias, ao proporcionar uma maior integração de factores internos ao sujeito, não só considerou estas variáveis, como deu o seu contributo no entendimento no funcionamento destas variáveis. O postulado fundamental da teoria de Gottfredson é, com efeito, que as preferências profissionais e as escolhas de carreira “constituem primordialmente uma maneira de realizar um si social e, só de maneira secundária, um si psicológico” (Gottfredson, 1996, cit. Guichard e al (2001). A sua teoria considera um self social em sobreposição ao self psicológico, sendo que o primeiro realiza-se em primeiro lugar relativamente ao segundo, que se realiza num papel secundário, principalmente quando se trata de preferências e escolhas profissionais. Linda considera o género, a classe ou origem social, e a inteligência (aspectos mais sócias do self) como factores que têm a sua importância no não só no momento das escolhas vocacionais, como reflectem a sua influência no constructo das preferências vocacionais ao longo da vida, e influenciam os valores, a personalidades e os planos individuais dos sujeitos (aspectos mais privados do self).

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  11. A Teoria (parte I):Existem três noções centrais nesta teoria: o Mapa Cognitivo único das profissões, a Circunscrição e o Compromisso.
    O Mapa: parecia crer-se que os sujeitos viam as profissões da mesma forma, ou seja, a imagem de cada ocupação era igual para todos os sujeitos. Como poderia tal ser verdade?! Dentro da singularidade de cada ser humano, como podíamos todos ter o mesmo mapa cognitivo?! A autora debruçou-se sobre a questão e parece ter dado a resposta. O mapa tem uma estrutura que se inicia na infância, sendo “construído e elaborado” à medida que o ser humano cresce e se desenvolve, sendo que na adolescência atinge o seu objecto básico. Comparando diferenças e semelhanças sobre as ofertas profissionais, o jovem vai construindo imagens das profissões, ao mesmo tempo que constrói as dimensões do conceito de si que serão pertinentes para a escolha profissional. Estes processos desenrolam-se, segundo a autora, em diferentes estágios, sendo que cada um concerne diferentes procedimentos por parte do sujeito e cada um com a sua função específica no constructo do mapa. O mapa cognitivo responde a duas dimensões. Uma primeira, a masculinidade-feminidade, que compreende as relações sociais entre sexos, e uma segunda, o nível de prestigio, que compreende o prestigio social ou a posição social que as diversas profissões têm para oferecer. O mapa é um poderoso auxílio em compreender o jovem gostaria de ser e quanto esforço está disposto a exercer para conseguir ter determinada ocupação.
    A Circunscrição: o jovem procura e cria cognitivamente um espaço social dentro do qual é “aceitável” fazer a sua escolha e depois investe sobre essa ocupação, no lugar que mais lhe convém, ao mesmo tempo que vai desenvolvendo as suas preferências. Este espaço é um espaço social, que funciona como uma terceira dimensão do mapa cognitivo, sendo que cada domínio profissional ocupa uma posição social e dependendo da imagem que o jovem tem desta ocupação e está disposto a seguir por esse espaço, limitá-lo ou alargá-lo. Procura compatibilidade entre o conceito de si e o ambiente profissional, e vai “desenhando” esse espaço consoante a congruência e adequação do si às funções profissionais. Aspectos que também contribuem para a circunscrição deste espaço são as circunstâncias de acessibilidade de determinada ocupação, ou seja, as barreiras e obstáculos, ou pelo contrário, os elementos favorecedores. A identidade e a conveniência familiar descobrem-se em determinadas situações como factores que influenciam a construção deste espaço social. O modelo desenvolvimentista de Gottfredson, assim como em outros modelos de outros autores, postulam que o processo de circunscrição das opções de carreira desde a infância até ao início da idade adulta assenta em alguns factores, sendo o mais precoce a tipificação sexual.

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  12. A Teoria (parte II)- O Compromisso: este é um processo pelo qual o indivíduo renuncia às suas aspirações preferidas para escolher profissões que apesar de menos compatíveis com o seu si interior, são mais acessíveis. O sujeito submete-se a um compromisso tendo em conta os obstáculos ou oportunidades do ambiente socioeconómico, que condicionam a ida para determinada profissão. Este julgamento sobre a acessibilidade acerca de uma profissão reflecte-se na sua opinião e probabilidade de ingressar numa determinada profissão. Este julgamento ou percepção desta acessibilidade e compatibilidade vai-se estruturando ao longo do seu desenvolvimento, mesmo que o espaço social continue estável. Neste seguimento, o sujeito vai abandonando alternativas antes perspectivadas como as mais salientes em termos de preferências. No fundo, o compromisso vocacional resulta de uma acomodação das aspirações individuais à realidade externa, uma vez estas nem sempre são de facto realistas.

    Relativamente a esta dimensão da teoria, Gottfredson refere as dimensões mais importantes aquando a escolha do caminho vocacional, considerando a Teoria de Holland’s (1973), de diferentes classes de sujeitos. Assim, no momento do compromisso, as raparigas, principalmente as mais favorecidas, parecem dar mais importância às questões do género, neste caso da feminilidade, seguindo-se o prestígio e estatuto social e o valor do tempo livre. Por outro lado, os rapazes parecem dar mais importância ao prestígio social, depois ao tempo livre e por último a promoção individual. Outros estudos apontaram para resultados significativamente divergentes e afastados da teoria de linda, pelo que em 1996, esta autora matizou a sua teoria, dando outro relevo a estas dimensões. As questões da feminilidade e masculinidade não se evidenciaram em casos no meio rural, onde se verificou que se dava mais importância ao tempo livre, em primeiro lugar, e ao prestígio, em segundo lugar.

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  13. Contributos (parte I): a teoria de Linda Gottfredson não só reuniu aspectos de ordem psicológica, que as teorias anteriores à sua consideravam, como considerou os aspectos de ordem sociológica, dando importância a outras dimensões do si sujeito que não eram suficientemente consideradas até então. Esta teoria procurou responder às questões das aspirações vocacionais, reforçando que se encontravam afinal mais direccionadas para o género, classe social e inteligência (de todo ignorada) e menos direccionada para os interesses vocacionais, como os valores quer pessoais quer parentais e familiares. Deu igualmente o seu contributo no entendimento da questão no seio dos jovens de NSE mais baixo e que regularmente demonstravam um nível de habilidades menores. Estes jovens, segundo a autora, aspiram a “classes profissionais” mais baixas que os jovens mais favorecidos, mesmo que partilhem da mesma imagem de determinada profissão. Podemos também entender que os interesses expressos predizem as aspirações tardias e a empregabilidade e finalmente, a existência de uma relação entre o interesse vocacional e o emprego, que, embora esperado, não prevê de maneira alguma o nível de satisfação do sujeito sobre uma profissão.
    A pertinência desta teoria revela-se mais aquando o seu enquadramento no quadro socioeconómico actual. Logo no inicio destas questões da psicologia, tivemos o contributo de Renata Scalec, que, apesar de se centrar no seu país de origem, a Jugoslávia, retratou muito bem o desenho da introdução e ascensão do capitalismo na Europa. Tal como Sennet, R. irá referenciar, esta nova forma de poder libertador não passa de uma aparência, em que os poderes da alta administração são reforçados resultando numa realidade de desigualdade. Nesta perspectiva, esta ideologia capitalista trouxe consigo uma política em que os conceitos de Espaço Social, Circunscrição e Compromisso foram criando cada vez mais forma e os conceitos de auto-eficácia e tomada decisão tomaram novas dimensões. O desenvolvimento global trouxe o neocapitalismo, com a ideologia em que o lucro sobrepõe-se às aspirações humanas. Uma das características deste capitalismo é a flexibilidade, que impera e se rege pela ausência de vínculos mais sólidos entre patrões e empregados e amigos, etc. Planear o futuro transforma-se num acto corroído. Deste modo, o indivíduo parece ver-se obrigado a abdicar das suas preferências vocacionais no intuito de ir ao encontro das suas necessidades moldadas pelas constantes mudanças no meio ambiente que o rodeia. E por outro lado, muitos são os talentos que se perdem pela ânsia de riqueza e poder. O sujeito passou por uma série de etapas de desenvolvimento vocacional, durante o qual definiu as suas preferências, criou as suas imagens ocupacionais e o seu mapa cognitivo, limitou o seu campo de acção viável procedendo á circunscrição. Neste momento, ao contrário dos seus dezoito anos, o jovem depara-se com circunstâncias de desemprego geral, de oferta profissional limitada, de diminuição do mercado de trabalho. O novo mundo muito embora menos burocrático e mais dinâmico, é muito mais imprevisível. Mesmo para aqueles que se encontram empregados, a falta de resposta aceitavelmente segura de como será o dia de amanhã no lugar de trabalho é uma constante. Esta realidade poderá ser irreal tendo em conta o espaço social que criou, porém, por outro lado, a circunscrição pode ser demasiado circunscrita quando o jovem se depara com um panorama assustador. Aí o jovem terá certamente de tomar outros rumos, todos eles certamente sublinhados pelo lema do “curto prazo” consequente do capitalismo… Várias serão as questões que lhe irão vaguear o pensamento. A insegurança e a incerteza terão lugar na percepção da realidade.

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  14. Contributos (parte II): O compromisso profissional foi comprometido e neste contexto o jovem terá de repensar o processo e abdicar das suas preferências (eu considero que o jovem reflecte sobre a realidade percepcionada e não toma como solução enveredar por um caminho irreal que poderá transformar a sua jornada num beco sem saída). A autora valida esta situação, confirmando que de facto o jovem pode abandonar factores que foram considerados no processo de circunscrição, sendo que o primeiro a ser dispensado será a variável “interesses pessoais”. Ao abdicar de algumas das suas preferências respeitantes aos seus interesses, o jovem dá automaticamente mais importância a outras, tal como o género e o prestígio social. Considera neste contexto ser compensado com factores como o reforço salarial, a possibilidade de uma carreira e, num ambiente cujo desemprego toma proporções dantescas, o facto de ter estar empregado e ter trabalho. Neste entendimento, pergunto-me se de facto a construção do mapa cognitivo findou na adolescência, etapa em que o campo de exploração do adolescente se limita ao território precedentemente circunscrito no mapa cognitivo. Entendo que perante a alteração na tomada de decisão do jovem perante a realidade socioeconómica, as próprias percepções individuais do campo profissional vá continuando a ser, quer subjectiva quer objectivamente, construídas (ou refeitas?)… haverá um outro estágio de desenvolvimento vocacional posteriormente ao estágio da orientação para o si único? A autora fecha o desenvolvimento vocacional nesta etapa, não considerando a possibilidade de um outro. A sua teoria a meu entender não cria resposta às transformações capitalistas, e mesmo que esse não fosse o seu objectivo primário, não prevê as mesmas, o que poderia ser de importância.
    Uma das questões da teoria da autora diz respeito á relevância que as questões do género tomam no momento do compromisso. Muito embora a variável feminidade-masculinidade esteja presente inevitavelmente no processo, esta considerável inevitabilidade parece ser, no mundo actual, cada vez menor. A sociedade actual tende cada vez mais a permitir a ocorrência de comportamentos sexuais que eram anteriormente considerados inaceitáveis e a promover formas diversificadas de integração de orientações sexuais variadas. Desde há cerca de duas décadas atrás, os papéis têm sofrido uma inversão de responsabilidade. Existem cada vez mais mulheres em profissões conotadas como masculinas, assim como o inverso é real também. O factor do género tem decrescido de relevância e parece actuar menos no desenvolvimento vocacional.Com esta flexibilização da representação sexual, as novas gerações parecem estar mais facilitadas, com mais opções de escolha e compromisso, e novas oportunidades subjectivas. Em minha perspectiva, isto sugere uma necessidade de reflexão sobre as crenças acerca da feminidade-masculinidade, e de uma redefinição da zona de alternativas do mapa cognitivo e suas alargar em consequência as respectivas actuais dimensões, considerando igualmente a individualidade da cada pessoa.
    Relativamente à falta de compromisso anteriormente referida, o que aparenta ser uma das lacunas desta, e de outras, teorias do desenvolvimento vocacional, muito embora a autora mencione este aspecto, é a falta de estratégias de coping face ao contexto socioeconómico actual. Estabelecer medidas para suportar e ultrapassar estas dificuldades é de pertinência geral e poderá impedir que o sujeito demore tempo mais que o seria necessário na sua (re)integração no mercado de trabalho.

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  15. Incertezas: Ponto assente na teoria de Linda, que o desenvolvimento da carreira nas crianças é vista como uma parte importante do desenvolvimento geral dos indivíduos. No entanto, actualmente, os programas de orientação vocacional focam a sua atenção em fases de final de ciclo, nomeadamente no 9º ano de escolaridade e ensino secundário, momentos de tomada de decisão. Neste sentido coloca-se a questão de que não será vantajoso intervir mais cedo no desenvolvimento da carreira dos jovens de modo a evitar os grandes obstáculos que surgem nos momentos de tomada de decisão e de investimento (investimento, Teoria da Identidade, Marcia, 1966)?! O desenvolvimento vocacional é fortemente influenciado pela formação de hábitos, atitudes e comportamentos que ocorrem durante a infância e a adolescência e, indo ao encontro de Taveira (1999), não será que uma intervenção mais precoce pode ajudar tanto na prevenção dos obstáculos e barreiras, como na melhoria da qualidade do processo de orientação vocacional dos indivíduos? A escola pode neste contexto tomar uma posição de instrutora e numa fase posterior de mediadora num momento de tomada de decisão? Num conjunto infindável de unidades de conteúdos programáticos, haverá certamente lugar para a promoção do desenvolvimento de atitudes positivas face a si próprio e face às oportunidades educativas, procurando desenvolver nos alunos sentimentos de segurança e autonomia relativamente ao trabalho escolar e evitar um compromisso desnecessariamente precoce num conjunto demasiado limitado de alternativas. Estudos colocaram esta questão e levaram avante programas de orientação precoce, sendo que verificaram portanto as vantagens da mesma. Partindo do princípio de que os resultados escolares são determinantes nos processos de decisão de um grande número de alunos (Viegas de Abreu, 2001), as intervenções de desenvolvimento de carreira serão tanto mais eficazes se integrarem no seu planeamento actividades que visem também o sucesso escolar dos alunos. Neste sentido, não será que uma orientação precoce poderá dar o seu contributo na percepção da auto-eficácia (PAE, Teoria do Desenvolvimento Cognitivo, Bandura, A., 1963) do sujeito (aluno) que por conseguinte irá contribuir para melhores decisões no momento de investir sobre um compromisso de carreira? !
    Certamente que esta orientação se iria demonstrar como uma mais-valia. Em primeira instancia o aluno iria ser capaz de mapear as sua áreas fortes manifestas ao longo do decorrer do processo ensino aprendizagem, e a sua percepção de auto eficácia iria desenvolver-se mais consistente e em conformidade com a realidade.
    Coloco outra questão, também ela referida pelos colegas. Uma orientação direccionada para o outro extremo, ou seja, para a idade adulta. No mundo actual, a formação de planos de carreiras é cada vez mais desajustada. Se os jovens actuais carecem de cuidados na área da orientação, mais necessidade terão os jovens de antigamente, os adultos de hoje, que nunca foram fornecidos de medidas de orientação e cujo desenvolvimento vocacional foi feito com base em crenças, conjuntos de valores e bom senso. Confrontados por um mundo em constante mudança, como podem eles criar estratégias de superação e ajustamento face às alterações presentes?! Porque cessa o processo numa fase em que o desenvolvimento vocacional certamente ainda não estagnou o seu constructo? Porque se destina um processo de orientação a determinada fase da vida do sujeito, com um inicio e um fim?!
    A pensar…

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  16. Teoria da Circunscrição e do Compromisso de Linda Gottfredson - (parte2)
    Penso que a teoria da Circunscrição e do Compromisso de Linda Gottfredson é uma teoria que não é estanque, pode ser adaptada a qualquer época, desde que considerada a realidade actual do sujeito. Tendo em consideração o contexto social do individuo, quer seja com os ideais dos anos 80, quer seja com as conceições dos tempos de hoje, a percepção mais ou menos demarcada do individuo não deixa de ser importante nas suas decisões de vida, e nas suas opções profissionais. As concepções mudam mas a importância que assumem nas nossas decisões mantem-se, penso que os conceitos mencionados na teoria são flexíveis a actualidade do sujeito.
    No entanto, encontro algumas limitações no que se refere aos timings desses processos, ao contrário do que Linda Gottfredson refere, penso que a decisão vocacional não é uma decisão para toda a vida. A dinâmica do próprio sujeito e do meio social onde se encontra deve ser considerada, nós mudámos e o mundo a nossa volta muda, por isso processo de escolha vocacional não pode ser estático. Ainda mais no presente contexto social, que somos compelidos a readaptar as nossas opções, a reformular as nossas prioridades, e a reajustar as percepções profissionais de uma forma constante. Na minha opinião a intervenção para orientação vocacional deve seguir essas premissas de dinamismo e flexibilidade.

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  17. Susana,
    muito bom comentário (apenas esqueceu da ligação mais clara entre investimento e exploração na teoria do Marcia - de resto muito bem, é por aqui!)

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  18. Lisete,
    é isso mesmo que se pretende: a sua reflexão crítica sobre as mais-valias, limitações e interligações conceptuais com outras teorias e construtos.

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