P.f. teçam os vossos comentários críticos a esta intervenção da Prof. Renata Salecl, como contextualização da problemática da escolha, aplicada ao desenvolvimento psicológico e, em concreto, à tomada de decisão vocacional.
Ainda que houvesse muita mais para dizer cá fica um apontamento:
No vídeo apresentado fala-se bastante de capitalismo, e estou de acordo com a maior parte das observações feitas... Se admitirmos que hoje ainda vivenciamos uma estrutura ideológica capitalista muito dinamizada pelo neoliberalismo de Reagan e Thatcher, então admitimos que a organização atomizada e individual da meritocracia substitui a organização social anteriomente nas mãos do Estado...
Mais recentemente, Giddens e depois Blair e outros vieram falar de uma nova teoria: a Terceira Via, onde, por decreto aboliam a luta de classes e declaravam o capitalismo humanizado, onde agora não existiriam classes, mas sim colaboradores.
Ora, todos estes movimentos levam a uma responsabilizaçaõ crescente das pessoas face ao trabalho, face ao capital, face ao seu destino de vida... Acontece é que, na maior parte das vezes, as variáveis macrosistémicas é que definem os trajectos de vida das pessoas... Mas a responsabilização das pessoas desresponsabiliza o capitalismo e os seus executantes...
Isso acontece hoje: a recessão económica mundial, a especulação financeira sobre as dívidas soberanas, a transferência massiva de rendimentos do trabalho para o capital, a desvalorização da força de trabalho, a detruição produtiva, o emagrecimento do mercado de trabalho associado à perda de direitos... Tudo isso são variáveis macrosistémicas. Acontece é que isto associado a um Estado cada vez menos regulador e a um estado social que perde, dia após dia, competências e intervenção, leva a que a responsabilidade que cai sobre as pessoas seja enorme. E as consequências percepcionadas das suas escolhas são de grande dimensão...
A atomização, o individualismo e o idealismo da meritocracia terão levado a uma sensação de “estar na corda sem rede” e qualquer decisão mal feita pode resultar muito mal... O fim gradual do estado social aponta no mesmo caminho.A descaracterização das classes poderá também ter impactos psicológicos... Ao proletário que deixou de ser proletário para ser colaborador foi-lhe colocada mais responsabilidades nas costas e perdeu de vista a dialéctica das relações de trabalho, havendo dificuldade em decidir sobre os seus interesses ou os interesses da entidade patronal...
Creio que, mais do que o excesso de escolhas possíveis, é a responsabilização excessiva pelas escolhas que pode explicar os impactos psicológicos potencialmente emparelhados com a escolha vocacional...
A Professora Renata Salecl descreve o paradoxo da escolha, relacionando-o com as mudanças sociais que ocorreram com a queda do comunismo e que culminaram com o domínio do capitalismo, concretamente na Jugoslávia. Com a queda do comunismo que deu lugar ao capitalismo, resultaram grandes mudanças sociais, ocorreram debates a vários níveis, especialmente nos domínios da psicologia, comportamentais, económicos, e os indivíduos passaram a confrontar-se com uma infinidade de escolhas e a uma nova realidade onde predomina uma concorrência feroz tanto ao nível das organizações com entre os indivíduos. As múltiplas escolhas provocam nos indivíduos um sentimento de ansiedade que se traduz na indecisão, podendo gerar um “congelamento” que torna muito difícil a tomada de decisão, tendo em conta que um indivíduo ao fazer uma escolha está exposto ao que os outros pensam da sua decisão, podendo vir a ser julgado negativamente e alvo de sátira. Deste modo, a escolha é uma questão social, em que muitas vezes os indivíduos fazem escolhas idênticas aos que os rodeiam, tendo como base a avaliação dos outros, optando por uma escolha ideal, o que pode gerar insatisfação. O capitalismo gerou na sociedade e nos indivíduos uma mudança de valores, criando uma ideologia de que qualquer pessoa conseguia ser bem sucedida e que a classe trabalhadora de outrora significava pobreza, o que era considerada uma vergonha. A autora refere que Freud defendia que o mal-estar da sociedade e do indivíduo estavam relacionados. Neste caso, o capitalismo, ao incentivar que o consumo seja cada vez maior, que os indivíduos trabalhem cada vez mais horas e se produza cada vez mais, vai gerar com que as pessoas se auto-consumam, o que acarreta muitos malefícios a nível da saúde como também se tornem indivíduos submissos. A ideologia da escolha não é assim tão optimista, na medida que previne as mudanças sociais devido ao receio das perdas resultantes das consequências das escolhas, verificando-se que quanto menos um indivíduo tem, menor será a sua reacção devido ao receio de perder o pouco que possui. O capitalismo fomenta o individualismo, fazendo crer que cada um controla o seu destino, pacificando as pessoas, tornando-as mais críticas delas próprias do que relativamente à sociedade em que estão inseridas. Concluindo, relativamente à orientação vocacional, na era do comunismo devido às escolhas serem limitadas e os empregos seguros, nos quais os indivíduos raramente mudavam de profissão ao longo da vida, havia geralmente alterações a nível das suas funções, que criava a necessidade de formação e testes de conhecimento e que permitia a progressão na carreira. Neste período, a orientação vocacional era essencialmente ao nível do emparelhamento “Matching” entre as características do indivíduo e da profissão. O técnico assumia o papel de especialista. Actualmente, havendo uma infinidade de escolhas em termos de profissões, com empregos precários e com baixa empregabilidade, a orientação vocacional assume uma visão holística, com práticas a nível não só do emparelhamento “Matching”, mas também do realizar “Enabling”, do treinamento “Coaching” e do relacionar “Networking”, actuando a nível individual, grupal, consultadoria e investigação. Os empregos para toda a vida estão em extinção e cada vez existem mais “voos de borboleta”, em que os indivíduos assumem diferentes trajectórias profissionais em áreas distintas, e “trajectórias yo-yo” que são ciclos cada vez mais frequentes entre formação e desemprego. Teresa Magalhães
Parte I: A Professora Renata Salecl tem estudado a tendência genericamente designada por "ideologia da escolha", como a moderna visão do capitalismo se enquadra numa sociedade que respeita e defende a liberdade como valor fundamental, mas que vive presa nas ansiedades da escolha associada à maximização da liberdade de escolha individual. Tudo isto vem a propósito das escolhas que todos temos que fazer no nosso dia-a-dia, sejam escolhas académicas, profissionais ou até nas escolhas mais íntimas e pessoais. O processo de escolha é em si mesmo muito interessante, como estrutura a Prof. Renata Salecl: - a escolha é um processo eminentemente social - nós escolhemos o que as outras pessoas escolhem, e muitas vezes ficamos obcecados com a forma como os outros nos vêm nas nossas escolhas; - nós procuramos sempre uma escolha ideal - razão pela qual as pessoas se sentem insatisfeitas porque nunca têm a certeza se a escolha que fizeram foi a escolha acertada (ou ideal); - uma escolha envolve sempre uma perda - sempre que escolhemos uma direcção na vida perdemos as possibilidades de outra. Contudo, a abundância de opções de escolha que existem nas sociedades modernas torna-nos cada vez mais insatisfeitos, infelizes e ansiosos; estamos constantemente a questionar as nossas escolhas, mesmo antes de nos decidirmos, e acreditamos que os nossos fracassos são sempre culpa das escolhas erradas que fizemos, levando-nos a pensar que “se eu tivesse escolhido a outra opção, isso não acontecia”. Confusão, indecisão, pânico, arrependimento, ansiedade: as escolhas vêm sempre acompanhadas de um preço. Como é que nas sociedades industrializadas e desenvolvidas, o elevado número de opções de escolha, através das quais poderíamos tornar as nossas vidas quase “perfeitas”, leva a um aumento de insatisfação, ansiedade e de sentimentos de culpa? Segundo Barry Schwartz, psicólogo e professor, invoca 4 possíveis razões para a nossa insatisfação: - Custo de oportunidade – ao fazermos uma escolha baseada num grande número de opções, precisamos de abrir mão de todas as outras; se tivéssemos apenas 2 opções, poderíamos determinar mais facilmente os prós e contras de cada uma. - Arrependimento – o acto de não escolher é, por si, uma escolha; ou seja, não nos arrependemos apenas do que escolhemos, mas também do que deixamos de escolher. - Capacidade de adaptação – e se a escolha que parecia ser a mais sensata até ontem, hoje se mostra ser a pior que poderíamos ter escolhido? - Peso da comparação – estamos constantemente a compararmo-nos com os outros, pensando sempre que “a galinha da vizinha é sempre melhor que a minha”. A complexidade do sistema educativo e das suas articulações com o mundo laboral e, por outro lado, os custos individuais e sociais de decisões de carreira menos adequadas, são razões suficientes para criar programas de orientação que ajudem os indivíduos na sua tomada de decisão. A orientação vocacional e profissional tem sido alvo de uma evolução que traz consigo um maior leque de possibilidades de modos e campos de intervenção na área da orientação. Para além disso, a orientação vocacional já não é passível de uma visão pontual, na qual o psicólogo compara as características do indivíduo com os requisitos das diferentes actividades profissionais e conclui qual a mais adequada; a intervenção do psicólogo tem como objectivo ajudar o indivíduo no seu desenvolvimento vocacional, nas suas escolhas escolares e profissionais.
Parte II: No mundo actual, existe um grande volume de informação disponível, e o acesso aos meios de informação democratizou-se. Ao termos de tomar uma decisão sobre a nossa orientação vocacional (o que gosto mais de fazer, qual o curso que me vai proporcionar melhores saídas profissionais, etc.), tendemos a recolher o máximo de informação que conseguirmos, seja ela sobre a forma escrita (livros, jornais, etc.), visual (documentários, filmes, etc.), ou verbal (apresentações, opiniões de amigos e familiares, etc.). Nesta altura, e por tudo o que foi referido anteriormente, é normal que nos sintamos “perdidos” no meio de tanta informação, e indecisos sobre o melhor caminho a seguir (este curso ou profissão será o melhor para mim?), receosos sobre uma possível perda inerente à nossa escolha. A orientação vocacional deverá enfatizar nos indivíduos a autoria dos seus projectos, permitindo: (i) a exploração de si próprio; (ii) a exploração de competências, motivações e capacidades; (iii) a exploração do mundo profissional; (iv) a exploração do sistema educativo e formativo; (v) a tomada de decisão/compromisso. Nunca podemos deixar que a inépcia seja uma consequência das inúmeras opções de escolha com que somos confrontados diariamente e, tal como diz Sérgio Godinho, “Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida…”.
Aproveitando os contributos da Teresa e da Ana, complemento o meu primeiro raciocínio...
Dizia aqui que o capitalismo, através de processos de atomização, individualismo e meritocracia tinha passado uma excessiva responsabilidade sobre as escolhas para cima das pessoas.
Complemento, dizendo que, ainda que o capitalismo, como se diz no vídeo, pareça oferecer muitas mais hipóteses de escolha, é preciso perceber se esse processo democrático de escolha não é, muitas vezes, um falso processo ou um processo de falso sentimento de controlo sobre as decisões das nossas vidas...
Se, por um lado, é dada a sensação de que podemos escolher o tipo de cereais que queremos ao pequeno almoço (entre 50 hipóteses possiveis no supermercado, por outro lado, temos que perceber que estas liberdades de escolha se reduzem muitas vezes do ponto de vista macrosistémico, por causas materialistas gerais que fogem do controlo pessoal e individualizado.
É um pouco como o discurso do "pensar global, agir local"... Ok, mudarmos as lâmpadas de nossa casa para lâmpadas economizadoras é porreiro para o ambiente, mas, provavelmente, o combate ambientalista, para ter efeito, tem que ser feito na luta contra modelos de produção assentes no carbono e modelos de realização de mais valia assentes no consumismo desenfreado... Assim, a resposta deveria ser "pensar global, agir global"...
Dizendo isto pretendo dizer: se o problema da escolha fosse apenas saber o que escolher entre uma infinidade de hipóteses poderíamos estar presente um paradigma "humanista", do tipo "you can be all you want", onde o céu é o limite, o mesmo é dizer, não há limitações para o potencial humano. Mas a verdade é que há. E as limitações estão em todo o lado. São, muitas vezes, variáveis macrosistémicas que não podemos controlar enquanto indivíduos isolados e atomizados.
Resultado: certamente, consequências psicológicas advindas da pressão de escolha e da responsabilidade. As pessoas sabem que o céu não é o limite e que o mercado de trabalho é uma coisa muito materialista e pouco idealista ou romântica... E certamente, alterações na forma de ver a orientação vocacional, como já vimos. Convém perceber as variáveis sociais e as macrosistémicas, fazer ajustamento de expectativas para adaptar o projecto de vida a um percurso mais realista... Minha opinião, como é óbvio!
Por isso é que no primeiro post deixava a questão se a ansiedade da escolha se deveria mais à amplitude de escolhas possíveis ou à responsabilização excessiva do sujeito pelas consequências dessa escolha.
Agora deixo mais algumas questões (que são verdadeiras, são realmente duvidas): a amplitude de escolhas possíveis que podemos fazer no dia a dia não é um falso sentimento de controle, que nos permite um locus de controle interno como forma de responsabilização e culpabilização? As variáveis sociais e macro não controlarão em grande parte o indivíduo e as suas escolhas, sem que por vezes se aperceba de tal? Enquanto que as primeiras proporcionam um sentimento de controle, as segundas não proporcionarão o materialismo e a verdadeira dialéctica entre as escolhas e o possível?
Olá colegas. Olá Professora. Não conseguia abrir o blog (não sei porque carga de água), mas cá estou eu. Tal como eu sempre e de acordo com a minha identidade, tardo mas não falho:)
Li os comentários anteriores. Temos que fazer isto ("isto" é interagir entre, comentar e criticar, saudavelmente, note-se!)... Para todos os efeitos acrescento que apesar da minha "libertinidade" vocal, o meu à vontade para este tipo de tarefa é mínimo, pelo que vou começar devagarinho. Não riam! É verdade!
A banda desenhada da professora Rachel é uma excelente actividade para o ser humano. Temos uma mensagem verbal, auditiva, e cognitiva... As imagens são um conjunto de metáforas destinadas ao nosso subconsciente enquanto a mente está ocupada a ouvir e a ler. Parecendo não ter nada a ver, apenas acrescentei esta nota no sentido de que este pequeno filme pudesse ser enviado pelo país inteiro, circulando pelas mentes com o objectivo de acordar consciências. Principalmente para aquelas que ainda ressonam profundamente. Ou, tal como é objecto do material que "analisamos", teimam em "nanar" porque é mais cómodo, mais fácil, sem riscos nem medos. Nem de propósito, este filme recai sobre um tema que me tem chamado imenso à atenção e sobre o qual recaem muitas das conversas que mantenho dentro do meu círculo mais íntimo. A possibilidade da escolha! É óbvio, na percepção da sociedade actual e seu politiquismo que podemos escolher. Nós podemos escolher, mas há escolha?! Há muitas escolhas, mas podemos escolher aquela?! Pois é, tal como eu suspeito, e quem sabe mais tarde ajudar à conclusão, parece de facto que há escolha! Parece que de facto foi-nos dada a possibilidade de fazermos a nossas escolhas. Mas livre-arbítro, há?! É nesta tematica, associada à politica actual, que se desenrolam as palavras e os desenhos discorrentes das frases da nossa autora. Há tempos que eu própria me apercebi que as minhas escolha hà muito não são feitas apenas baseadas na minha livre vontade. Apenas porque é aquilo que eu quero profundamente fazer. Convenhamos, se assim fosse, quase todos nós teriamos a necessidade de ganhar o euromilhões. Oh, quem não iria dar a volta ao mundo antes de tirar uma licenciatura (se bem que fosse preciso!!! se não uma volta ao mundo , pelo menos uma volta ao quarteirão)?! Por isso, para não ir mais longe, poque me licenciei? Porque tinha que me integrar no mundo do trabalho. O facto pelo qual escolhi uma licenciatura para esse efeito já tem que ver com a maneira como percepcionei , ou me foi percepcionada, essa possibilidade, de maneira que já não é para aqui chamada...
Parte A O dia de ontem não é o dia de hoje nem será o dia de amanhã. Tudo se encontra em constante transformação. Nos dias de hoje, a prespectiva da Orientação Vocacional retrata a prática cujos paradigmas se centram no indivíduo global, tem uma visão holística e integradora. Onde reconhece no mesmo a capacidade para efectuar as suas escolhas. As quais, perante um determinado contexto com determinadas variáveis será a mais adequada. Não querendo dizer com isto que a mesma “encerre um fim em si”, que se encontre revestida de um caracter irreversivel, pelo contrário, o individuo opta pelo “caminho” que naquele momento lhe parece o mais benéfico. Consciente que caso necessite na sua “caminhada” de voltar atrás e “revesitar” o momento em que decidiu e fazer nova escolha pode. Claro está que todo este processo implica custos! Ao efectuarmos uma escolha temos de abdicar sempre das outras opções e saber lidar com a ansiedade que a esse processo é intrinseca.
Parte B No início do século XX, o problema da orientação era o bom ajustamento entre as características pessoais e as tarefas do trabalho – “the right man for the right job”, num mundo em que predominava a perspectiva estática da pessoa e a estratificação familiar e social determinava, em grande parte, a distribuição pelos percursos escolares. Assistia-se a uma perpetuaçao profissional, ou seja, se eu fosse filha de um médico o mais certo seria seguir a carreira de médica, se fosse filha de um advogado o mais certo seria ser advogada e assim sucessivamente. Devo salientar que no meu caso por ser mulher o mais certo seria ser “dona de casa”. O mundo apresentava-se como um lugar previsível para viver, toda uma vida era passada numa mesma empresa, numa mesma região geográfica e num mesmo país. Verificavam-se as designadas trajectórias de projecção balistica, onde o individuo que se formava numa determinda área desempenhava funções profissionais nessa mesma área toda a sua vida. Assistiamos mesmo a individuos que trabalhavam e faziam a sua carreira toda a vida numa mesma empresa. Aqui o papel do “conselheiro de orientação profissional”- assim designado à época – surgia na simplicidade de equacionar o problema da escolha para a vida, após uma escolaridade curta e só para alguns, de que estavam excluídos muitos outros, como por exemplo, as mulheres e as classes sociais de poder económico mais baixo. Era uma visão muito minimalista do Ser Humano e da sociedade envolvente. O que interessava era a construção de instrumentos de avaliação psicológica estandardizados. Foi o tempo da elaboração das baterias de aptidões, e um pouco mais tarde, dos inventários de interesses, das escalas de valores e dos inventários de personalidade. Estes últimos instrumentos pretendiam (embora que ainda de uma forma simplista), alargar a avaliação psicológica ao domínio da personalidade e da motivação, e responder aos problemas da adaptação dos indivíduos às organizações. O conceito de trabalho, para além das tarefas, passa também a considerar o clima e a cultura das empresas. Aqui observamos uma mudança no paradigma. Neste sentido, ocorre também uma mudança em termos de terminologia. A qual traduz a passagem da natureza pontual da intervenção para a abordagem longitudinal da carreira (life span). As designações de desenvolvimento da carreira e desenvolvimento vocacional transmitem o processo de desenvolvimento no domínio vocacional, sendo este colocado em termos de fases, de tarefas e de comportamentos vocacionais. A partir dos anos 80, o conceito de carreira tem uma acepção mais ampla, compreendendo a sequência e a interacção dos papéis desempenhados ao longo da vida, nomeadamente nas actividades do estudo, do trabalho, da família, do lazer e da cidadania. A carreira e a vida são indissociáveis. Não podemos retirar ao individuo os diversos contextos em que se move e desempenha papeis.
Parte C Do ponto de vista conceptual, a perspectiva longitudinal da carreira (life span) alia-se à concepção da aprendizagem ao longo da vida, e os objectivos da educação da carreira são formulados em termos do auto-conhecimento, do conhecimento das oportunidades, da aprendizagem da tomada de decisão e da aprendizagem da transição. Estes objectivos têm um carácter preventivo e têm como finalidade última tornar os jovens autónomos face às suas decisões. Hoje em dia, assistimos à emergência de uma sociedada dotada de um carácter de imprevisibilidade e à necessidade dos individuos se encontrarem munidos de características de adaptabilidade/flexibilidade e autonomia. Esta prespectiva situa o desenvolvimento da carreira no seu contexto comunitário. A minha grande questão aqui é: Com a conjectura actual dos mercados de trabalho (escassez de trabalhos/empregos) será que faz sentido pensarmos naquilo que estamos vocacionados para fazer? Visto, cada vez mais hoje em dia ser um “luxo” ter um trabalho fixo que seja remunerado no final do mês! Uma coisa é certa, todos nós estavamos a precisar de uma “crise” para olharmos o Mundo de outra forma…
De politica pouco ou nada sei. De questões económicas aspas aspas. Mas sei que não sei. Muitos não sabem e acham que sabem. Deixa cá ver se consigo transmitir a minha ideia... O capitalismo nasceu não da necessidade da libertação do ser humano, entre medos, violações de direitos, limitações de escolha, poder autónomo quase inexistente, poder económico limitado, e por aí em diante. O capitalismo surgiu quando alguém, e diga-se meritoriamente que foi (foram) muito inteligente, utilizando as necessidades do povo e das classes oprimidas, afirmando poder dar respostas a estas, e oferecendo um novo mundo, agendrou um mecanismo de pseudo liberdade no qual ainda vivemos. No fundo o que aconteceu? Pegaram na politica existente, acrescentaram hipotéticos caminhos e escolhas e mudaram-lhe o nome. Não é discutível que de facto não vivíamos bem. Não é discutível que de facto o capitalismo muita coisa de boa trouxe. Não discuto que quanto mais não seja foi-nos possibilitada a liberdade do pensamento, pois esse pelo menos é nosso, desde que nos permitamos. Mas a realidade é uma realidade à margem da percepção que nos foi incutida... e que nós aceitamos. Os que não aceitam são ovelhas tresmalhadas que no seu rebanho são julgadas e postas de lado. Mas no entanto, essas ovelhas, no seu canto, comem o pasto que querem, que tomam a liberdade de pastar. Decidem o seu próprio caminho e definem as suas escolhas. O capitalismo veio acrescentar a necessidade das necessidades. Precisamos agora de coisas que há décadas atrás nem imaginariamos ser possivel. Nem tão pouco eram de facto insubstituiveis. As necessidades que se criaram não existem para o nosso bem estar mas sim para alimentar os "egos" de vilões perspicazes que engrandecem diarimante à medida que o suor do trabalhador vai escorrendo. É a era da Matrix!
Ainda que houvesse muita mais para dizer cá fica um apontamento:
ResponderEliminarNo vídeo apresentado fala-se bastante de capitalismo, e estou de acordo com a maior parte das observações feitas... Se admitirmos que hoje ainda vivenciamos uma estrutura ideológica capitalista muito dinamizada pelo neoliberalismo de Reagan e Thatcher, então admitimos que a organização atomizada e individual da meritocracia substitui a organização social anteriomente nas mãos do Estado...
Mais recentemente, Giddens e depois Blair e outros vieram falar de uma nova teoria: a Terceira Via, onde, por decreto aboliam a luta de classes e declaravam o capitalismo humanizado, onde agora não existiriam classes, mas sim colaboradores.
Ora, todos estes movimentos levam a uma responsabilizaçaõ crescente das pessoas face ao trabalho, face ao capital, face ao seu destino de vida... Acontece é que, na maior parte das vezes, as variáveis macrosistémicas é que definem os trajectos de vida das pessoas... Mas a responsabilização das pessoas desresponsabiliza o capitalismo e os seus executantes...
Isso acontece hoje: a recessão económica mundial, a especulação financeira sobre as dívidas soberanas, a transferência massiva de rendimentos do trabalho para o capital, a desvalorização da força de trabalho, a detruição produtiva, o emagrecimento do mercado de trabalho associado à perda de direitos... Tudo isso são variáveis macrosistémicas. Acontece é que isto associado a um Estado cada vez menos regulador e a um estado social que perde, dia após dia, competências e intervenção, leva a que a responsabilidade que cai sobre as pessoas seja enorme. E as consequências percepcionadas das suas escolhas são de grande dimensão...
A atomização, o individualismo e o idealismo da meritocracia terão levado a uma sensação de “estar na corda sem rede” e qualquer decisão mal feita pode resultar muito mal... O fim gradual do estado social aponta no mesmo caminho.A descaracterização das classes poderá também ter impactos psicológicos... Ao proletário que deixou de ser proletário para ser colaborador foi-lhe colocada mais responsabilidades nas costas e perdeu de vista a dialéctica das relações de trabalho, havendo dificuldade em decidir sobre os seus interesses ou os interesses da entidade patronal...
Creio que, mais do que o excesso de escolhas possíveis, é a responsabilização excessiva pelas escolhas que pode explicar os impactos psicológicos potencialmente emparelhados com a escolha vocacional...
Moisés Ferreira
A Professora Renata Salecl descreve o paradoxo da escolha, relacionando-o com as mudanças sociais que ocorreram com a queda do comunismo e que culminaram com o domínio do capitalismo, concretamente na Jugoslávia.
ResponderEliminarCom a queda do comunismo que deu lugar ao capitalismo, resultaram grandes mudanças sociais, ocorreram debates a vários níveis, especialmente nos domínios da psicologia, comportamentais, económicos, e os indivíduos passaram a confrontar-se com uma infinidade de escolhas e a uma nova realidade onde predomina uma concorrência feroz tanto ao nível das organizações com entre os indivíduos.
As múltiplas escolhas provocam nos indivíduos um sentimento de ansiedade que se traduz na indecisão, podendo gerar um “congelamento” que torna muito difícil a tomada de decisão, tendo em conta que um indivíduo ao fazer uma escolha está exposto ao que os outros pensam da sua decisão, podendo vir a ser julgado negativamente e alvo de sátira.
Deste modo, a escolha é uma questão social, em que muitas vezes os indivíduos fazem escolhas idênticas aos que os rodeiam, tendo como base a avaliação dos outros, optando por uma escolha ideal, o que pode gerar insatisfação.
O capitalismo gerou na sociedade e nos indivíduos uma mudança de valores, criando uma ideologia de que qualquer pessoa conseguia ser bem sucedida e que a classe trabalhadora de outrora significava pobreza, o que era considerada uma vergonha.
A autora refere que Freud defendia que o mal-estar da sociedade e do indivíduo estavam relacionados. Neste caso, o capitalismo, ao incentivar que o consumo seja cada vez maior, que os indivíduos trabalhem cada vez mais horas e se produza cada vez mais, vai gerar com que as pessoas se auto-consumam, o que acarreta muitos malefícios a nível da saúde como também se tornem indivíduos submissos.
A ideologia da escolha não é assim tão optimista, na medida que previne as mudanças sociais devido ao receio das perdas resultantes das consequências das escolhas, verificando-se que quanto menos um indivíduo tem, menor será a sua reacção devido ao receio de perder o pouco que possui.
O capitalismo fomenta o individualismo, fazendo crer que cada um controla o seu destino, pacificando as pessoas, tornando-as mais críticas delas próprias do que relativamente à sociedade em que estão inseridas.
Concluindo, relativamente à orientação vocacional, na era do comunismo devido às escolhas serem limitadas e os empregos seguros, nos quais os indivíduos raramente mudavam de profissão ao longo da vida, havia geralmente alterações a nível das suas funções, que criava a necessidade de formação e testes de conhecimento e que permitia a progressão na carreira.
Neste período, a orientação vocacional era essencialmente ao nível do emparelhamento “Matching” entre as características do indivíduo e da profissão. O técnico assumia o papel de especialista.
Actualmente, havendo uma infinidade de escolhas em termos de profissões, com empregos precários e com baixa empregabilidade, a orientação vocacional assume uma visão holística, com práticas a nível não só do emparelhamento “Matching”, mas também do realizar “Enabling”, do treinamento “Coaching” e do relacionar “Networking”, actuando a nível individual, grupal, consultadoria e investigação. Os empregos para toda a vida estão em extinção e cada vez existem mais “voos de borboleta”, em que os indivíduos assumem diferentes trajectórias profissionais em áreas distintas, e “trajectórias yo-yo” que são ciclos cada vez mais frequentes entre formação e desemprego.
Teresa Magalhães
Parte I:
ResponderEliminarA Professora Renata Salecl tem estudado a tendência genericamente designada por "ideologia da escolha", como a moderna visão do capitalismo se enquadra numa sociedade que respeita e defende a liberdade como valor fundamental, mas que vive presa nas ansiedades da escolha associada à maximização da liberdade de escolha individual.
Tudo isto vem a propósito das escolhas que todos temos que fazer no nosso dia-a-dia, sejam escolhas académicas, profissionais ou até nas escolhas mais íntimas e pessoais. O processo de escolha é em si mesmo muito interessante, como estrutura a Prof. Renata Salecl:
- a escolha é um processo eminentemente social - nós escolhemos o que as outras pessoas escolhem, e muitas vezes ficamos obcecados com a forma como os outros nos vêm nas nossas escolhas;
- nós procuramos sempre uma escolha ideal - razão pela qual as pessoas se sentem insatisfeitas porque nunca têm a certeza se a escolha que fizeram foi a escolha acertada (ou ideal);
- uma escolha envolve sempre uma perda - sempre que escolhemos uma direcção na vida perdemos as possibilidades de outra.
Contudo, a abundância de opções de escolha que existem nas sociedades modernas torna-nos cada vez mais insatisfeitos, infelizes e ansiosos; estamos constantemente a questionar as nossas escolhas, mesmo antes de nos decidirmos, e acreditamos que os nossos fracassos são sempre culpa das escolhas erradas que fizemos, levando-nos a pensar que “se eu tivesse escolhido a outra opção, isso não acontecia”.
Confusão, indecisão, pânico, arrependimento, ansiedade: as escolhas vêm sempre acompanhadas de um preço. Como é que nas sociedades industrializadas e desenvolvidas, o elevado número de opções de escolha, através das quais poderíamos tornar as nossas vidas quase “perfeitas”, leva a um aumento de insatisfação, ansiedade e de sentimentos de culpa?
Segundo Barry Schwartz, psicólogo e professor, invoca 4 possíveis razões para a nossa insatisfação:
- Custo de oportunidade – ao fazermos uma escolha baseada num grande número de opções, precisamos de abrir mão de todas as outras; se tivéssemos apenas 2 opções, poderíamos determinar mais facilmente os prós e contras de cada uma.
- Arrependimento – o acto de não escolher é, por si, uma escolha; ou seja, não nos arrependemos apenas do que escolhemos, mas também do que deixamos de escolher.
- Capacidade de adaptação – e se a escolha que parecia ser a mais sensata até ontem, hoje se mostra ser a pior que poderíamos ter escolhido?
- Peso da comparação – estamos constantemente a compararmo-nos com os outros, pensando sempre que “a galinha da vizinha é sempre melhor que a minha”.
A complexidade do sistema educativo e das suas articulações com o mundo laboral e, por outro lado, os custos individuais e sociais de decisões de carreira menos adequadas, são razões suficientes para criar programas de orientação que ajudem os indivíduos na sua tomada de decisão.
A orientação vocacional e profissional tem sido alvo de uma evolução que traz consigo um maior leque de possibilidades de modos e campos de intervenção na área da orientação. Para além disso, a orientação vocacional já não é passível de uma visão pontual, na qual o psicólogo compara as características do indivíduo com os requisitos das diferentes actividades profissionais e conclui qual a mais adequada; a intervenção do psicólogo tem como objectivo ajudar o indivíduo no seu desenvolvimento vocacional, nas suas escolhas escolares e profissionais.
Parte II:
ResponderEliminarNo mundo actual, existe um grande volume de informação disponível, e o acesso aos meios de informação democratizou-se. Ao termos de tomar uma decisão sobre a nossa orientação vocacional (o que gosto mais de fazer, qual o curso que me vai proporcionar melhores saídas profissionais, etc.), tendemos a recolher o máximo de informação que conseguirmos, seja ela sobre a forma escrita (livros, jornais, etc.), visual (documentários, filmes, etc.), ou verbal (apresentações, opiniões de amigos e familiares, etc.). Nesta altura, e por tudo o que foi referido anteriormente, é normal que nos sintamos “perdidos” no meio de tanta informação, e indecisos sobre o melhor caminho a seguir (este curso ou profissão será o melhor para mim?), receosos sobre uma possível perda inerente à nossa escolha.
A orientação vocacional deverá enfatizar nos indivíduos a autoria dos seus projectos, permitindo: (i) a exploração de si próprio; (ii) a exploração de competências, motivações e capacidades; (iii) a exploração do mundo profissional; (iv) a exploração do sistema educativo e formativo; (v) a tomada de decisão/compromisso.
Nunca podemos deixar que a inépcia seja uma consequência das inúmeras opções de escolha com que somos confrontados diariamente e, tal como diz Sérgio Godinho, “Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida…”.
Aproveitando os contributos da Teresa e da Ana, complemento o meu primeiro raciocínio...
ResponderEliminarDizia aqui que o capitalismo, através de processos de atomização, individualismo e meritocracia tinha passado uma excessiva responsabilidade sobre as escolhas para cima das pessoas.
Complemento, dizendo que, ainda que o capitalismo, como se diz no vídeo, pareça oferecer muitas mais hipóteses de escolha, é preciso perceber se esse processo democrático de escolha não é, muitas vezes, um falso processo ou um processo de falso sentimento de controlo sobre as decisões das nossas vidas...
Se, por um lado, é dada a sensação de que podemos escolher o tipo de cereais que queremos ao pequeno almoço (entre 50 hipóteses possiveis no supermercado, por outro lado, temos que perceber que estas liberdades de escolha se reduzem muitas vezes do ponto de vista macrosistémico, por causas materialistas gerais que fogem do controlo pessoal e individualizado.
É um pouco como o discurso do "pensar global, agir local"... Ok, mudarmos as lâmpadas de nossa casa para lâmpadas economizadoras é porreiro para o ambiente, mas, provavelmente, o combate ambientalista, para ter efeito, tem que ser feito na luta contra modelos de produção assentes no carbono e modelos de realização de mais valia assentes no consumismo desenfreado... Assim, a resposta deveria ser "pensar global, agir global"...
Dizendo isto pretendo dizer: se o problema da escolha fosse apenas saber o que escolher entre uma infinidade de hipóteses poderíamos estar presente um paradigma "humanista", do tipo "you can be all you want", onde o céu é o limite, o mesmo é dizer, não há limitações para o potencial humano. Mas a verdade é que há. E as limitações estão em todo o lado. São, muitas vezes, variáveis macrosistémicas que não podemos controlar enquanto indivíduos isolados e atomizados.
Resultado: certamente, consequências psicológicas advindas da pressão de escolha e da responsabilidade. As pessoas sabem que o céu não é o limite e que o mercado de trabalho é uma coisa muito materialista e pouco idealista ou romântica... E certamente, alterações na forma de ver a orientação vocacional, como já vimos. Convém perceber as variáveis sociais e as macrosistémicas, fazer ajustamento de expectativas para adaptar o projecto de vida a um percurso mais realista... Minha opinião, como é óbvio!
Por isso é que no primeiro post deixava a questão se a ansiedade da escolha se deveria mais à amplitude de escolhas possíveis ou à responsabilização excessiva do sujeito pelas consequências dessa escolha.
Agora deixo mais algumas questões (que são verdadeiras, são realmente duvidas): a amplitude de escolhas possíveis que podemos fazer no dia a dia não é um falso sentimento de controle, que nos permite um locus de controle interno como forma de responsabilização e culpabilização? As variáveis sociais e macro não controlarão em grande parte o indivíduo e as suas escolhas, sem que por vezes se aperceba de tal? Enquanto que as primeiras proporcionam um sentimento de controle, as segundas não proporcionarão o materialismo e a verdadeira dialéctica entre as escolhas e o possível?
Olá colegas. Olá Professora.
ResponderEliminarNão conseguia abrir o blog (não sei porque carga de água), mas cá estou eu. Tal como eu sempre e de acordo com a minha identidade, tardo mas não falho:)
Li os comentários anteriores. Temos que fazer isto ("isto" é interagir entre, comentar e criticar, saudavelmente, note-se!)... Para todos os efeitos acrescento que apesar da minha "libertinidade" vocal, o meu à vontade para este tipo de tarefa é mínimo, pelo que vou começar devagarinho. Não riam! É verdade!
A banda desenhada da professora Rachel é uma excelente actividade para o ser humano. Temos uma mensagem verbal, auditiva, e cognitiva... As imagens são um conjunto de metáforas destinadas ao nosso subconsciente enquanto a mente está ocupada a ouvir e a ler. Parecendo não ter nada a ver, apenas acrescentei esta nota no sentido de que este pequeno filme pudesse ser enviado pelo país inteiro, circulando pelas mentes com o objectivo de acordar consciências. Principalmente para aquelas que ainda ressonam profundamente. Ou, tal como é objecto do material que "analisamos", teimam em "nanar" porque é mais cómodo, mais fácil, sem riscos nem medos.
ResponderEliminarNem de propósito, este filme recai sobre um tema que me tem chamado imenso à atenção e sobre o qual recaem muitas das conversas que mantenho dentro do meu círculo mais íntimo. A possibilidade da escolha! É óbvio, na percepção da sociedade actual e seu politiquismo que podemos escolher. Nós podemos escolher, mas há escolha?! Há muitas escolhas, mas podemos escolher aquela?! Pois é, tal como eu suspeito, e quem sabe mais tarde ajudar à conclusão, parece de facto que há escolha! Parece que de facto foi-nos dada a possibilidade de fazermos a nossas escolhas. Mas livre-arbítro, há?! É nesta tematica, associada à politica actual, que se desenrolam as palavras e os desenhos discorrentes das frases da nossa autora.
Há tempos que eu própria me apercebi que as minhas escolha hà muito não são feitas apenas baseadas na minha livre vontade. Apenas porque é aquilo que eu quero profundamente fazer. Convenhamos, se assim fosse, quase todos nós teriamos a necessidade de ganhar o euromilhões. Oh, quem não iria dar a volta ao mundo antes de tirar uma licenciatura (se bem que fosse preciso!!! se não uma volta ao mundo , pelo menos uma volta ao quarteirão)?! Por isso, para não ir mais longe, poque me licenciei? Porque tinha que me integrar no mundo do trabalho. O facto pelo qual escolhi uma licenciatura para esse efeito já tem que ver com a maneira como percepcionei , ou me foi percepcionada, essa possibilidade, de maneira que já não é para aqui chamada...
Parte A
ResponderEliminarO dia de ontem não é o dia de hoje nem será o dia de amanhã. Tudo se encontra em constante transformação.
Nos dias de hoje, a prespectiva da Orientação Vocacional retrata a prática cujos paradigmas se centram no indivíduo global, tem uma visão holística e integradora. Onde reconhece no mesmo a capacidade para efectuar as suas escolhas. As quais, perante um determinado contexto com determinadas variáveis será a mais adequada. Não querendo dizer com isto que a mesma “encerre um fim em si”, que se encontre revestida de um caracter irreversivel, pelo contrário, o individuo opta pelo “caminho” que naquele momento lhe parece o mais benéfico. Consciente que caso necessite na sua “caminhada” de voltar atrás e “revesitar” o momento em que decidiu e fazer nova escolha pode. Claro está que todo este processo implica custos! Ao efectuarmos uma escolha temos de abdicar sempre das outras opções e saber lidar com a ansiedade que a esse processo é intrinseca.
Parte B
ResponderEliminarNo início do século XX, o problema da orientação era o bom ajustamento entre as características pessoais e as tarefas do trabalho – “the right man for the right job”, num mundo em que predominava a perspectiva estática da pessoa e a estratificação familiar e social determinava, em grande parte, a distribuição pelos percursos escolares. Assistia-se a uma perpetuaçao profissional, ou seja, se eu fosse filha de um médico o mais certo seria seguir a carreira de médica, se fosse filha de um advogado o mais certo seria ser advogada e assim sucessivamente. Devo salientar que no meu caso por ser mulher o mais certo seria ser “dona de casa”. O mundo apresentava-se como um lugar previsível para viver, toda uma vida era passada numa mesma empresa, numa mesma região geográfica e num mesmo país. Verificavam-se as designadas trajectórias de projecção balistica, onde o individuo que se formava numa determinda área desempenhava funções profissionais nessa mesma área toda a sua vida. Assistiamos mesmo a individuos que trabalhavam e faziam a sua carreira toda a vida numa mesma empresa. Aqui o papel do “conselheiro de orientação profissional”- assim designado à época – surgia na simplicidade de equacionar o problema da escolha para a vida, após uma escolaridade curta e só para alguns, de que estavam excluídos muitos outros, como por exemplo, as mulheres e as classes sociais de poder económico mais baixo. Era uma visão muito minimalista do Ser Humano e da sociedade envolvente. O que interessava era a construção de instrumentos de avaliação psicológica estandardizados. Foi o tempo da elaboração das baterias de aptidões, e um pouco mais tarde, dos inventários de interesses, das escalas de valores e dos inventários de personalidade. Estes últimos instrumentos pretendiam (embora que ainda de uma forma simplista), alargar a avaliação psicológica ao domínio da personalidade e da motivação, e responder aos problemas da adaptação dos indivíduos às organizações. O conceito de trabalho, para além das tarefas, passa também a considerar o clima e a cultura das empresas. Aqui observamos uma mudança no paradigma. Neste sentido, ocorre também uma mudança em termos de terminologia. A qual traduz a passagem da natureza pontual da intervenção para a abordagem longitudinal da carreira (life span). As designações de desenvolvimento da carreira e desenvolvimento vocacional transmitem o processo de desenvolvimento no domínio vocacional, sendo este colocado em termos de fases, de tarefas e de comportamentos vocacionais. A partir dos anos 80, o conceito de carreira tem uma acepção mais ampla, compreendendo a sequência e a interacção dos papéis desempenhados ao longo da vida, nomeadamente nas actividades do estudo, do trabalho, da família, do lazer e da cidadania. A carreira e a vida são indissociáveis. Não podemos retirar ao individuo os diversos contextos em que se move e desempenha papeis.
Parte C
ResponderEliminarDo ponto de vista conceptual, a perspectiva longitudinal da carreira (life span) alia-se à concepção da aprendizagem ao longo da vida, e os objectivos da educação da carreira são formulados em termos do auto-conhecimento, do conhecimento das oportunidades, da aprendizagem da tomada de decisão e da aprendizagem da transição. Estes objectivos têm um carácter preventivo e têm como finalidade última tornar os jovens autónomos face às suas decisões. Hoje em dia, assistimos à emergência de uma sociedada dotada de um carácter de imprevisibilidade e à necessidade dos individuos se encontrarem munidos de características de adaptabilidade/flexibilidade e autonomia. Esta prespectiva situa o desenvolvimento da carreira no seu contexto comunitário.
A minha grande questão aqui é: Com a conjectura actual dos mercados de trabalho (escassez de trabalhos/empregos) será que faz sentido pensarmos naquilo que estamos vocacionados para fazer? Visto, cada vez mais hoje em dia ser um “luxo” ter um trabalho fixo que seja remunerado no final do mês! Uma coisa é certa, todos nós estavamos a precisar de uma “crise” para olharmos o Mundo de outra forma…
De politica pouco ou nada sei. De questões económicas aspas aspas. Mas sei que não sei. Muitos não sabem e acham que sabem. Deixa cá ver se consigo transmitir a minha ideia...
ResponderEliminarO capitalismo nasceu não da necessidade da libertação do ser humano, entre medos, violações de direitos, limitações de escolha, poder autónomo quase inexistente, poder económico limitado, e por aí em diante. O capitalismo surgiu quando alguém, e diga-se meritoriamente que foi (foram) muito inteligente, utilizando as necessidades do povo e das classes oprimidas, afirmando poder dar respostas a estas, e oferecendo um novo mundo, agendrou um mecanismo de pseudo liberdade no qual ainda vivemos. No fundo o que aconteceu? Pegaram na politica existente, acrescentaram hipotéticos caminhos e escolhas e mudaram-lhe o nome. Não é discutível que de facto não vivíamos bem. Não é discutível que de facto o capitalismo muita coisa de boa trouxe. Não discuto que quanto mais não seja foi-nos possibilitada a liberdade do pensamento, pois esse pelo menos é nosso, desde que nos permitamos. Mas a realidade é uma realidade à margem da percepção que nos foi incutida... e que nós aceitamos. Os que não aceitam são ovelhas tresmalhadas que no seu rebanho são julgadas e postas de lado. Mas no entanto, essas ovelhas, no seu canto, comem o pasto que querem, que tomam a liberdade de pastar. Decidem o seu próprio caminho e definem as suas escolhas.
O capitalismo veio acrescentar a necessidade das necessidades. Precisamos agora de coisas que há décadas atrás nem imaginariamos ser possivel. Nem tão pouco eram de facto insubstituiveis. As necessidades que se criaram não existem para o nosso bem estar mas sim para alimentar os "egos" de vilões perspicazes que engrandecem diarimante à medida que o suor do trabalhador vai escorrendo. É a era da Matrix!